Death Life

Abril 1, 2008

                                          

“(…) A explicação de nós, do que fazemos e vivemos, é tão ridícula. No fim de contas apenas constatamos. Mas inventar o porquê, formular uma lei dá-nos a pequena ilusão de dominarmos o desconhecido. Não dominamos nada: conhecemos apenas a nossa fatalidade.
– A vida é estúpida, Ema, não tem «porquê». Os actos essenciais da vida realizamo-los com os olhos fechados: o prazer da boa música, ou da boa mesa, ou o prazer amoroso, ou a união com Deus. Até mesmo, se quiser, o próprio «descomer». Tudo o que é essencial é cego. Fechamos sempre os olhos. É por isso que no-los fecham quando morremos, se os deixamos abertos. (…)”

Vergílio Ferreira, in Alegria Breve

 O que vejo… o que vejo…

Que até na vida existe um pouco da morte. Que com o crescimento (na vida, no sofrimento)

nos vamos morrendo aos poucos. Que a cor da morte consegue estar presente até no cenário mais feliz. Mesmo ao lado do rubor das maçãs do rosto.

Dime lo que ves!! Dime lo que ves!…Dime. Eu vejo a Sagrada Família na margem da vida!Dime lo que ves!Dime!

 

Há nisto um mistério que me desvirtua e me oprime.

E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio

de mim.

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Epicuro me

Março 30, 2008

É preciso estar sempre embriagado.
Eis aí tudo: é a única questão.
 Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo
que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão,
é preciso embriagar-vos sem trégua.Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira.
Mas embriagai-vos.E se, alguma vez, nos degraus de um palácio,
sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto,
vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme,
a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala,
perguntai que horas são; e o vento, a onda,
a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão:
“É hora de embriagar-vos!
Para não serdes os escravos martirizados do
Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar!
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira”.
Baudelaire

As palavras,

Março 21, 2008

                               
As palavras têm dignidade – palavra de honra!As palvras têm valor – valem ouro, por isso são roubadas!As palavras são promessas – dou-te a minha palavra!As palavras são gulodice, uma doçura ou azedume – por isso há quem as mastigue e por vezes caem mal!
As palavras são sentença – têm a última palavra !
As palavras são forma, coisa, matéria e objecto – têm peso e gastam-se, pelo que o seu uso deve ser comedido e não banalizado, dispendido em vão!
As palavras fazem sentido mesmo quando são silenciadas e censuradas!
As palavras são sementes geradas no ventre, Jesus! são divinas – por isso Deus se fez verbo!As palavras são sempre revelação – anunciação!
As palavras são sagradas – pelo que incitam o fervor iconoclasta!
As palavras são mulheres, femininas – procriação, provocação, prazer, poder, diplomacia!
 
Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras
disse Ruy Belo
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Combino muitas vezes encontros com Wong Kar-Wai de forma quase insistente. Não consigo libertar-me dos seus jogos mentais, dos seus heróis e da feminilidade da sua câmara. A visualização é exigente e erótica acompanhada por bandas sonoras surpreendentes e inesquecíveis que nos levam para um tempo e um espaço que nunca queremos abandonar.

Jenelas,

Março 5, 2008

vãos rasgados, abertos, fendidos, unidos. suplicam-se: vãos.
gelosias, rótulas, óculos, empenas vazadas, frestas, rosáceas, flamejantes. suplicam-se: flamejantes.
janelas de dois lumes, três lumes ou geminadas, janelões, janelos, janelas, guarnecidas, estilizadas, talhadas, elaboradas, despidas, nuas. rogam-se: nuas.
platibandas rendilhadas, transparentes, transponíveis, disponíveis. rogam-se: disponíveis.
gradeamentos de ferro, forjado, fundido, de ferro fundido, de ardor cravejado, desmaterializado. como a ponte d. luiz. descarnado.
teias e cancelas sagradas. varandas, varadins, vãos de sacada, balaustrada, varanda alpendrada. sulcada.
suplicam-se que os vãos sejam rasgados, abertos e escancarados por forma a dilacerar o alcance de uma vista enquadrada. cega. escamoteada. censurada. por molduras, batentes, portadas, mainéis e lintéis.
já os vãos das portas querem-se entreabertos. suplicam-se: portas entreabertas. para sentir a textura do botão que sofregamente se desabotoa. para sentir o dedilhar das linhas. do risco. que gizou essas portas.
…p.a.u.l.a.t.i.n.a.m.e.n.t.e. vai-se sucumbindo ao doce canto, não da sereia nem da cotovia, mas ao do
beija-flor.

Quem dera a Foucault ter descoberto o universo que se esconde atrás da tua porta quando definia a heterotopia.

trilhas

Fevereiro 23, 2008

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Não, por aí não, por favor! Vai mais devagar!!- exclamou ela.

-Assim, nunca mais chegamos…
-Estaciona! Cuidado, que ainda esbarras num mundo de angústias!
– Não tenhas medo. – disse ele, conduzindo ainda mais rápido. Liberta-te desses comprometimentos excessivos onde a noite não sonha, e a felicidade é só uma ilusão.
– Por favor, não aceleres tanto… ainda entramos num beco escuro daqueles sem fim. Onde estão os jardins românticos decorados de flores que se beijam ao som do vento apaixonado?-perguntou ela.
-Não sei… já demos voltas e mais voltas e estamos sempre no mesmo lugar…

Precisamente a esta hora eu não devia estar aqui. devia estar a abrir uma porta e a deixar entrar o público de sempre, no passo lento de quem vai cumprir uma obrigação. a esta hora, dão pulos de alegria e fogem em passos rápidos, esgueiram-se pelas escadas na fuga a um espectáculo de reposição, substituição, que antes o que estavam à espera do que um de última hora. desconhecem a preocupação e de certeza que inspiram sofregamente o vazio comutado em fragmento de liberdade. a preocupação fica em mim. lençóis e cobertores puxados para trás. o cenário aberto onde ainda estou, não estando. o desenho na almofada, relevo.a cama já devia estar feita, já não devia ser cama, e devia estar já na forma original, sofá. eu já devia estar longe a abrir as palavras dos outros.mas a cama está aberta, desfeita, e é agora o repouso de dois seres desprovidos de preocupações, animais, felizes. de olhos fechados à obrigação.preciso de tempo. tempo para caminhar até à cama ainda por fazer. o momento em que a fizer vai dobrar-me, e ditar a rigidez do que tem de ser feito. adio a subida à superfície. ou melhor, a descida. flutuo na visão de lençóis amarrotados. adio.sucessão de pensamentos embrulhados. o por fazer. saudade. caminhos direitos em confronto com cruzamentos de pernas. entrecruzar do dever com a horizontalidade sem regras. perspectivas que me levam para o ponto de fuga, a cama ainda por fazer. enquanto ela ainda estiver por fazer, dou-me este prazer da multiplicidade de sensações, o frio no estômago, a paragem por caminhos outros, preguiça, sonho, sonhos.mais do que adiar a obrigação, adiar o encontro com outra cama por fazer. ainda. e a ilusão de que ao adiar, a cama ficará sempre por fazer.

Janeiro 18, 2008

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‘ Num paralelismo quase hipnotico
Entre o que foi e o que é…
Entre tudo o que estava e já não está
E entre tudo o que esta sem ter estado…
Saí de mim por estes dias,
Vi sonhos distantes, desejos…
Vi medos, vi temores…
Vi sorrisos e choros…
Descobri que o tédio,
Se chamava desalento…
E que a tristesa,
Se chamava solidão.
Porque é desalento não acreditar,
E é solidão não me fazer entender… ‘

É preciso que tudo se transforme.

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Aprendi depressa a sonhar.
Tenho no nariz o cheiro das folhas molhadas, aragens de palavras simples que não me deixam olhar para trás.
Adianto-me tantas vezes no mundo carregada de sonhos e de medos. Tremo muito na companhia dos meus joelhos! O laconismo dos passos comovem-me atipicamente, fazem-me esbarrar.
Tropeço nos desapontamentos, nas notas de rodapé que estilhaçam aquilo que sou…nesses momentos sinto que morro e volto a nascer de novo, mais equilibrada nos meus saltos sempre tão baixinhos, mas tão pouco estáveis.
Tenho caminhado sempre muito cheia de ecos, dos tempos que foram e daqueles que chegam. Construindo as protagonistas da minha história, cheias de cores e de luzes, andam comigo nas ruas e fogem dos mesmos labirintos que eu, querem-se sempre fazer melhores, as minhas heroínas chamam-se emoções.

Colar de páginas

Dezembro 31, 2007

Vai,Clara, vai estudar a ontologia que te fizeram…
Prepararam com graça, com melancolia lusco-fusco, com uma tarja negra que dói, dói como ter nascido outra vez.
E o que fizesse com as páginas,Clara?As deixasse molhar?E depois?
Pendurasse pelos varais?, o sol carcomendo as fibras daquelas folhas, um sol de ouro no lá fora e as folhas ainda úmidas.Por que você não sai dessa casa?
Por que não se concentra? Vai estudar aqueles pingos,
aquelas margens e os espaçamentos duplos, as entrelinhas que se entrechocam.
Vai amar o amor que te devotaram e, sobretudo, o corpo e a mente do outro.Com quem eu falo?Como respiro?Como respiro “nós”?Há uma metafísica na gaveta,
Clara. Pegue-a, cheire-a, rasgue-a em pequenos pedaços, mastigue depois leve à boca.
É a nossa hóstia, nosso sagrado corpo, é o teatro, o espetáculo que assistimos todo o dia naquelas classes velhas, é o corpo de um grego morto, é a nossa herança.Será que estudarão, algum dia, essa ontologia? Será que o farão com a devida delicadeza?
[Responde tudo isso, abra essa gaveta com coragem, com uma coragem que vence…]
Eu guardei as páginas, a caixa, os cadeados, as tramelas… Não me pergunte mais, ela está contida, não quero que encontrem, não quero que saibam, quero a quietude dos meus guardados, dos meus segredos. As páginas, incontáveis, molharam um pouco, todas as filosofias choravam juntas, você entende?.
Mas tranquei as folhas, aqui, no dentro que rasga em átomos, ainda úmidas, para que liquidisfazer. Eu não sei sair da casa, mesmo que eu não more mais aqui, eu nunca a deixo, há um poema debaixo do piso,há paredes verdes,
há um grão de mim mesmo atrás da porta, o grão da minha voz – eu sei, eu sinto que há. Eu dialogo com paredes verdes e o vazio, é do vazio que conheço, e o silêncio não é ausência: tudo desagregado, fechaduras e chaves inconciliáveis. As doutoras dizem: Patologias do Vazio (quando é do repleto impronunciável, pois a palavra não alcança). “Vivo” é a mente epopocando coelhinhos ou o corpo arfando em desejo? Os dois? Então nunca respirei, nunca estive vivo e nunca respirei “nós” realmente, nunca. Sim, estudarão. Não essa que trago fechada, mas aquela que escorre dos livros como o toddy marrom escorre do copo depois de liquidificado.
Um, um o fará com devida delicadeza, e esse,Clara, esse enganará com as palavras de impertinência toda uma etapa dessa pupa que é o Ser, esse vai buscar no mundo o que nunca esteve, nunca estará.

balões

Dezembro 30, 2007

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Hoje troquei a minha cama pelo sofá e o meu silêncio apagado pela voz do Zach Condon .Larguei o coração agarrei a razão acordou -me com certezas…
agora não as quero ouvir.Fartei-me da inutilidade das coisas sérias e resolvi:
-Hoje, faço uma grande festa!!!
Estão todos convidados!!!
.
Faço as promessas que duram para sempre em improvisos que harmonizam a música que ouço, seguro-me nos meus sapatos de cinderela que combinam com o meu andar infantil e sonho com balões de gás hélio e me deixar voar até a lua.

*Tomara que nesse ano que se aproxima eu perca o vôo e seja obrigado a andar sob as árvores…

 Só foram preciso 10 segundos em Last.fm pra que  me despertasse a  atenção e fizesse criar algum tipo de expectativa e esperança num rasgo de voz para o que se seguiria.O que se seguiu foi um mocinho de  ar melancolico com uma linda voz e o seu projeto Beirut que foi pra mim a grande surpresa desse final de ano.E esse mocinho chamado Zach Condon canta tão delicadamente como se encontrasse na boca de cena a declamar e os coros a imprimirem um carácter trágico a toda a teatralidade que se ouve e sente nas suas canções.Beirut(nome do projeto) é uma banda de lindissímas orquestrações, onde violinos, conjuntos de sopros, acordeões, entrelaçam uns pelos outros, apaixonam-se enquanto bebem um café com bolachas juntos, desiludem-se mutuamente e eu aqui a assistir a tudo isto tão bem coordenado.Por um momento lembrou me Los Hermanos .“The Flying Club Cup” inicialmente remete-nos para o México, até que o acordeão assume maior destaque e leva-nos para Paris (ou antes Nantes?), e a forma como Zach Condon se vai multiplicando entre músicas regionais do leste europeu  e as aglomera para criar canções que fariam sentido em qualquer lugar e em qualquer altura, é fascinante.