Foi naquela esquina que esquartejei o segredo. Talvez não fosse assim tão secreto, mas quis esquartejá-lo ali mesmo. Tinha de ser aí. Tinha de ser nesse instante. Um segredo ainda tão novo, hesitante, dormente. Mas escandalosamente ávido de ser atirado contra uma esquina, vontade de saber qual o desenho gravado no ângulo branco, na lâmina. Em quantas partes o cortaria, quantas partes ficariam por cortar. Já não podia continuar escondido. E as cordas dos arames vibraram com um vento inusitado e estranho, e as palavras soltaram-se e rasgaram-no. Morto o segredo, ficou apenas o vento, cada vez mais forte, estranhamente quente. E silêncio. Só silêncio dentro do vento em espiral, o pó a redemoinhar. E nós lá dentro, parados, e o silêncio. E os nós dos meus dedos dentro dos bolsos, e os teus braços à minha volta invisíveis, o abraço que não, que nunca chegou. À volta do meu corpo hirto, as mãos nos bolsos, apenas o vento. Porquê o vento… talvez se tivesse gesticulado as mãos tivessem empurrado o segredo com mais força, e ele tivesse rodopiado na espiral que rodeava os nossos corpos parados naquela esquina. Talvez. Mas eu sabia que não havia muito a esperar, e as mãos nos bolsos sabiam que não valia de nada enlaçar o vento inesperado, outras mãos nãos as agarrariam numa espiral de carícias. Deixar as mãos nos bolsos foi fechar em mim esperanças fictícias. E ainda bem que assim foi. Ficaria apenas com as mãos a abanar no vento cada vez mais ondulantemente veloz. Porque não abriste os meus bolsos e não as resgataste do sufoco. Passou. O segredo já não era só meu. E o vento despenteava-me os cabelos, cortina nos meus olhos, e talvez por isso não tivesse percebido o que farias tu com o segredo. Por entre os cabelos finos, que a mão saída do bolso afastava, pude entrever o teu silêncio, o teu rosto opaco, a tua vontade de ir embora, sozinho, e ao mesmo tempo a despedida lentamente adiada. O abraço, enfim. Opaco, também. E o segredo estropiado caiu em espiral em cima de mim, com fios soltos de intranquilidade que não soubeste sossegar. O sufoco. E o teu pedido, apenas isso, de encontros, palavras, sorrisos, mas em esquinas dos outros, nas esquinas de todos. Espraiou-se em mim a raiva de ter aberto assim o bolso do meu segredo. Via em ti os indecisos, os confusos, os controlados, os calmos, os seguros desígnios de um compasso tão irregular como as batidas do meu coração. E por fim fomos embora, para longe daquela esquina onde desenterrei o segredo para nada, tornado pó. Fui para casa, levava nos bolsos a tua falta, mas sabia-te longe do momento em que quis trazer-te para os meus ponteiros. Os teus só pediam descanso. E não marcaram a hora. E não marcaram outra hora. E foste embora, sem nenhum sinal de perturbação, incómodo, e eu fiquei com uma réstia de ridícula esperança de que desses corda ao teu relógio, porque ouvia na janela as pancadas do vento fora de horas. Esperei absurdamente por uma palavra transparente como o barulho do vento. Mas as palavras continuaram iguais, raras, misteriosas, cansadas, normais. Resolvi esperar. Parar. Maior do que eu a vontade de te sacudir, vontade de ser vento, de manhã, de noite, de tarde. Até que enfim percebi que mesmo o vento tem dignidade, e não aparece sempre com a mesma intensidade. Mais leve, mais suave, de repente grave. E perceber isto foi arrebatar o vento para dentro de mim. Foi perceber que as árvores não balançam com o vento. Que secretamente devo voltar a ser árvore. Árvore. E que é o vento que balança à volta das árvores.

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Tinha poucas certezas e menos palavras. Tinha ainda menos senso de humor, nessas horas. Mas sorria irresponsavelmente e ninguém reclamava. Sorria pra não rir, de si mesmo ou de alguém.

Mas acima de tudo, de si mesmo.Ah, conhecia seus defeitos tão bem. E esses sorrisos não são simpáticos, são defensivos. Ninguém se preocupa com sorrisos.Mas ele sim.

Talvez devesse começar a economiza-los.Quando aquela música tocou, e todo mundo dançava como se fosse qualquer música, talvez não fosse.

Era a música dele, apenas dele, naquele momento. E ninguém sabia, nem se atreveu a discutir o assunto. Nem ele.E era uma música melancolicamente disfarçada de feliz. Como ele.

E aquele conflito volta a bater na porta: quantos anos merecia ele ter?Depois de tudo deixar aparecer, na frente de quem talvez nem saiba quem ele era, já não é mais.

E deixou muita história pra contar, aquele ser que ele era antes de ser de novo.

Janela do meu quarto

Agosto 8, 2007

                          

No instante em que abro a janela do mesmo quarto, meus coelhinhos voltam a me atormentar

olhando a única parede verde tomando meu toddy, a cidade dorme, enquanto meu sono dispersa e dá espaço aos dilúvios internos que dão voltas e voltas a fio

sento e ouço a mesma música, que me guia nessas noites angustiantes, e nostálgicas de certa forma

me desculpe tantos rodeios, mas no meu ponto de vista, não há provas suficientes de que as palavras expliquem, ou sequer esboçem qualquer pensamento em sua forma mais bruta, das mais variadas interpretações

neste diálogo solitário, entre mim e a parede, eu continuo a observar uma cidade que ainda dorme e muitos sonham, afujentando alguns de meus tormentos

finalmente dou meu último gole, sabendo que amanhã mais um toddy virá e mais coelhinhos  me visitarão enquanto olho a mesma parede verde

 

p.s/preciso vomitar coelhinhos.

“E se você fosse embora, por exemplo, se partisse sem olhar para trás, assumindo a solidão, sabendo que pode ser um erro, um grave erro, mas que você se sentiria bem assim mesmo, faria isso? Perderia a segurança, mas o que significa estar seguro? Alguém está? Você poderia admitir, sem se enganar, que realmente está seguro?” – do livro Apanhador No Campo de Centeio

 

eu costumo espalhar minhas fotos pela casa, todas no chão e sentar no sofá para me ver.eu faço isso sempre quando quero ficar perto de mim, eu lembro bem de uma foto em especial na qual eu sempre coloco no canto direito, pelo simples motivo de ter que virar o rosto para ver, sempre achei isso tão curioso. pois o ponto de vista é algo totalmente diferente, mesmo nos meus maiores sentimentos efemeros tinha a certeza, de que eu não estava em casa.

p.s/:Ana Carla em crise de egocentrismo – bom, é isso aí! 😀

 

Kafkani(ANA)!

Julho 20, 2007

Em busca do tingível:
pintar as mãos com versos de amêndoas
ou fabricar horas debaixo da língua.
Como se Picasso fraturasse
o mundo
na veêmencia de ‘O Poeta’,
e soubesse que por detrás do tempo
nós estaríamos aguardando.
Mas não:
só nos resta um pôster de Kafka na parede,
do qual não podemos ver
com os olhos censurados.