Mundando de enderereço

Março 9, 2009

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Março 7, 2009

                      gorgeous_poem

vozes

Janeiro 7, 2009

blinded1Tem tanta voz por dentro, que eu me pego tendo que organizar todos os sons. Aprendizado nunca cogitado, ter de fundar referenciais e abandonar concepções que já não dão tanta conta do presente.
Fui pega por um pedido, despertou minha piedade momentânea. Era uma das vozes, mais uma, chegando e levando meu trabalho à estaca zero novamente, porque, com mais uma novidade sonora, tenho eu que reorganizar tudo, mais uma vez.
– Você só pode estar brincando comigo!…
Dizia e, ao mesmo tempo em que começava com uma energia poderosa, como se viesse liberta de um sufocamento e só tivesse aquele instante para comunicar alguma importante coisa, também ia diminuindo na intensidade, ao ponto de ter de ser sussurrado o comigo.
Sobre outra voz, para você o que não nominarei:
Antes, antes, antes, eu lhe quero traduzir uma das muitas vozes, um dos muitos pedidos. Ia assim:
– Não some da minha vida, não.
No entanto, soaria, em língua nossa, tão exagerado e tão extremado, que eu calo. Talvez você até suma, afinal, como vai saber que é importante que permaneça por perto?
– Permaneça.
Têm essas falas, cada uma extremamente fiel e leal. O fato de se relacionarem diversamente não desmente a lealdade de cada som empregado nessas elocuções em silêncio. São o melhor de mim. E tão melhor que eu nem divido, eu calo.
– Não brinca assim.
Repetiu mesmo o tema. Vou recomeçar a organização dos sons.

Epílogo…vazio.

Agosto 23, 2008

estou cansada.
sinto-me estupidamente

frustrada

.abolutamente nada.

 

 

Choveu cedo em mim

Maio 6, 2008

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

J. Cortázar

                             

.Tentação sabática.

Este sábado sinto-me particularmente preguiçosa, tão preguiçosa que vou dedicar-me à pura fruição estética das coisas, à sua forma, estrutura e matéria.
Este sábado sinto-me particularmente estupidificada, tão estupidificada que vou renunciar aos conteúdos seculares, sociais e analíticos.
Este sábado está particularmente soalheiro, tão soalheiro que vou percorrer o caminho do inefável gizado pela luz.
Este sábado vou deixar-me levar pelo comboio de corda que fica ali bem perto da Tabacaria.
Este sábado vou prescindir dos porquês e serei mera espectadora das formas das coisas que existem por si só, deixando que a luz seja portadora da sua própria revelação.

Este sábado vou seguir o exemplo de Deus e vou descansar.
Este sábado vou lambuzar as minhas sensações com chocolate.
Este sábado vou sucumbir ao prazer do VER sem pensar em NADA.

Ponto Linha Plano – o prazer da distracção. é fim-de-semana!

Rouge

Abril 7, 2008

                   

[vermelho-feminino-vivo-encarnado-de-escarlate-da-cor-do-sangue-vivo-
do-rubor-do-fervor-da-dor-do-ardor- do-dorido-condoído-enfurecido-contorcido- ferido-dorido-agudizante-dilacerante-forte-da-amante- vermelho-feminino-vivo-encarnado-impulsivo-obsessivo-
possessivo-abrasivo-expressivo-dramático-exacerbado
assim
é a cor dissonante dos meus ponteiros
vermelhos-corrosivos-estridentes-ardentes
assim
é o meu tempo
vermelho-feminino-vivo-encarnado- de-escarlate-da-cor-do-sangue-vivo-
do-rubor-do-fervor-da-dor-do-ardor- do-dorido-condoído-enfurecido-contorcido- ferido-dorido-agudizante-dilacerante-forte-da-amante- vermelho-feminino-vivo-encarnado-impulsivo-obsessivo-
possessivo-abrasivo-expressivo-dramático-exacerbado
assim
é-assim-sou-assim-pueril-quase-infantil-quase-quase-sem remédio-insanável-não-quero-remédio- gosto-do-sorriso-do-meu-sorriso-ainda-que-ferido-
sem-rumo-sem-fio-de-prumo-sem-
-vermelho-feminino-vivo-encarnado]

trilhas

Fevereiro 23, 2008

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Não, por aí não, por favor! Vai mais devagar!!- exclamou ela.

-Assim, nunca mais chegamos…
-Estaciona! Cuidado, que ainda esbarras num mundo de angústias!
– Não tenhas medo. – disse ele, conduzindo ainda mais rápido. Liberta-te desses comprometimentos excessivos onde a noite não sonha, e a felicidade é só uma ilusão.
– Por favor, não aceleres tanto… ainda entramos num beco escuro daqueles sem fim. Onde estão os jardins românticos decorados de flores que se beijam ao som do vento apaixonado?-perguntou ela.
-Não sei… já demos voltas e mais voltas e estamos sempre no mesmo lugar…

Janeiro 18, 2008

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‘ Num paralelismo quase hipnotico
Entre o que foi e o que é…
Entre tudo o que estava e já não está
E entre tudo o que esta sem ter estado…
Saí de mim por estes dias,
Vi sonhos distantes, desejos…
Vi medos, vi temores…
Vi sorrisos e choros…
Descobri que o tédio,
Se chamava desalento…
E que a tristesa,
Se chamava solidão.
Porque é desalento não acreditar,
E é solidão não me fazer entender… ‘

É preciso que tudo se transforme.

Colar de páginas

Dezembro 31, 2007

Vai,Clara, vai estudar a ontologia que te fizeram…
Prepararam com graça, com melancolia lusco-fusco, com uma tarja negra que dói, dói como ter nascido outra vez.
E o que fizesse com as páginas,Clara?As deixasse molhar?E depois?
Pendurasse pelos varais?, o sol carcomendo as fibras daquelas folhas, um sol de ouro no lá fora e as folhas ainda úmidas.Por que você não sai dessa casa?
Por que não se concentra? Vai estudar aqueles pingos,
aquelas margens e os espaçamentos duplos, as entrelinhas que se entrechocam.
Vai amar o amor que te devotaram e, sobretudo, o corpo e a mente do outro.Com quem eu falo?Como respiro?Como respiro “nós”?Há uma metafísica na gaveta,
Clara. Pegue-a, cheire-a, rasgue-a em pequenos pedaços, mastigue depois leve à boca.
É a nossa hóstia, nosso sagrado corpo, é o teatro, o espetáculo que assistimos todo o dia naquelas classes velhas, é o corpo de um grego morto, é a nossa herança.Será que estudarão, algum dia, essa ontologia? Será que o farão com a devida delicadeza?
[Responde tudo isso, abra essa gaveta com coragem, com uma coragem que vence…]
Eu guardei as páginas, a caixa, os cadeados, as tramelas… Não me pergunte mais, ela está contida, não quero que encontrem, não quero que saibam, quero a quietude dos meus guardados, dos meus segredos. As páginas, incontáveis, molharam um pouco, todas as filosofias choravam juntas, você entende?.
Mas tranquei as folhas, aqui, no dentro que rasga em átomos, ainda úmidas, para que liquidisfazer. Eu não sei sair da casa, mesmo que eu não more mais aqui, eu nunca a deixo, há um poema debaixo do piso,há paredes verdes,
há um grão de mim mesmo atrás da porta, o grão da minha voz – eu sei, eu sinto que há. Eu dialogo com paredes verdes e o vazio, é do vazio que conheço, e o silêncio não é ausência: tudo desagregado, fechaduras e chaves inconciliáveis. As doutoras dizem: Patologias do Vazio (quando é do repleto impronunciável, pois a palavra não alcança). “Vivo” é a mente epopocando coelhinhos ou o corpo arfando em desejo? Os dois? Então nunca respirei, nunca estive vivo e nunca respirei “nós” realmente, nunca. Sim, estudarão. Não essa que trago fechada, mas aquela que escorre dos livros como o toddy marrom escorre do copo depois de liquidificado.
Um, um o fará com devida delicadeza, e esse,Clara, esse enganará com as palavras de impertinência toda uma etapa dessa pupa que é o Ser, esse vai buscar no mundo o que nunca esteve, nunca estará.

jogo Surrealista

Novembro 27, 2007

             chihiro.jpg

Era uma tarde fria no inferno, eu não tinha nada além da minha cartola e um encarte de vinil do Dark Side of the Moon, que coloquei sob uma lareira e tudo então foi ficando quente, e virando céu. Lembrei-me de um céu que já não existe mais, o de nuvens pálidas que hoje estão cinzas da fumaça que sai a cada piscar de olhos do meu cachorro. Foi então que, sem céu nem inferno pra habitar, caí, caí, caí… até mergulhar numa coisa líquida, viscosa e antiga.
Para esquecer o que realmente eu não tinha, fui me misturando a esse licor que descia pelo ralo da pia e do sangue me desvinculei, posto que era dia. Comi uma maçã que tinha mais gosto de pena que de fruta, peguei meu guarda-chuva para atirar folhas secas no banco de arquitetura mal feita, tão bela quanto minha mão quando fica roxa.
Reuni todas as minhas forças e toda minha coragem, e gritei a única palavra que nunca tinha ousado dizer durante todo esse tempo: colher! E há tempos não grito flores, do mesmo modo que não entrego flores ao tempo. Que se crie um laço entre o tempo e a flor, e continuarei gritando.
Devo pular ou me empurrem então, tão direto do chão ao salgueiro. Dançarei minúcias e reminiscências naquele sombrio solar de escadas rolantes, pérolas fruta-cor comestíveis. Um coração parasita a me guiar pelo algodão denso de chumbo e serragem, no país das dores da paz.

Lost in translation

Novembro 8, 2007

I’m stuck. Does it get easier?¹

Foi entre lágrimas que ela me falou, num desatino momentâneo, as palavras cuspidas como se a tivessem envenenado até então. Como se trouxessem um sofrimento quase desconhecido.
-Em algum momento eu me perdi, e perdi também algo que me era essencial, que me conferia certezas e me fazia tomar atitudes, sempre tendo em vista planos há muito definidos e objetivos aparentemente imutáveis.
Agora eu preciso aprender a conviver com as dúvidas e a sensação de que nada me pertence, nem meus próprios rumos, uma vez que já não sei mais quais são eles. Uma vez que já não sei mais quem sou.

Era só uma menina. E eu gostaria de responder que tudo aquilo passaria e que dentro em breve ela sequer se lembraria das angústias que a consumiam, mas não sabia mentir (muito menos para o próprio espelho).

¹Charlotte, em “Lost In Translation” (vulgo “um dos filmes da minha vida”)