Death Life

Abril 1, 2008

                                          

“(…) A explicação de nós, do que fazemos e vivemos, é tão ridícula. No fim de contas apenas constatamos. Mas inventar o porquê, formular uma lei dá-nos a pequena ilusão de dominarmos o desconhecido. Não dominamos nada: conhecemos apenas a nossa fatalidade.
– A vida é estúpida, Ema, não tem «porquê». Os actos essenciais da vida realizamo-los com os olhos fechados: o prazer da boa música, ou da boa mesa, ou o prazer amoroso, ou a união com Deus. Até mesmo, se quiser, o próprio «descomer». Tudo o que é essencial é cego. Fechamos sempre os olhos. É por isso que no-los fecham quando morremos, se os deixamos abertos. (…)”

Vergílio Ferreira, in Alegria Breve

 O que vejo… o que vejo…

Que até na vida existe um pouco da morte. Que com o crescimento (na vida, no sofrimento)

nos vamos morrendo aos poucos. Que a cor da morte consegue estar presente até no cenário mais feliz. Mesmo ao lado do rubor das maçãs do rosto.

Dime lo que ves!! Dime lo que ves!…Dime. Eu vejo a Sagrada Família na margem da vida!Dime lo que ves!Dime!

 

Há nisto um mistério que me desvirtua e me oprime.

E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio

de mim.

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Colar de páginas

Dezembro 31, 2007

Vai,Clara, vai estudar a ontologia que te fizeram…
Prepararam com graça, com melancolia lusco-fusco, com uma tarja negra que dói, dói como ter nascido outra vez.
E o que fizesse com as páginas,Clara?As deixasse molhar?E depois?
Pendurasse pelos varais?, o sol carcomendo as fibras daquelas folhas, um sol de ouro no lá fora e as folhas ainda úmidas.Por que você não sai dessa casa?
Por que não se concentra? Vai estudar aqueles pingos,
aquelas margens e os espaçamentos duplos, as entrelinhas que se entrechocam.
Vai amar o amor que te devotaram e, sobretudo, o corpo e a mente do outro.Com quem eu falo?Como respiro?Como respiro “nós”?Há uma metafísica na gaveta,
Clara. Pegue-a, cheire-a, rasgue-a em pequenos pedaços, mastigue depois leve à boca.
É a nossa hóstia, nosso sagrado corpo, é o teatro, o espetáculo que assistimos todo o dia naquelas classes velhas, é o corpo de um grego morto, é a nossa herança.Será que estudarão, algum dia, essa ontologia? Será que o farão com a devida delicadeza?
[Responde tudo isso, abra essa gaveta com coragem, com uma coragem que vence…]
Eu guardei as páginas, a caixa, os cadeados, as tramelas… Não me pergunte mais, ela está contida, não quero que encontrem, não quero que saibam, quero a quietude dos meus guardados, dos meus segredos. As páginas, incontáveis, molharam um pouco, todas as filosofias choravam juntas, você entende?.
Mas tranquei as folhas, aqui, no dentro que rasga em átomos, ainda úmidas, para que liquidisfazer. Eu não sei sair da casa, mesmo que eu não more mais aqui, eu nunca a deixo, há um poema debaixo do piso,há paredes verdes,
há um grão de mim mesmo atrás da porta, o grão da minha voz – eu sei, eu sinto que há. Eu dialogo com paredes verdes e o vazio, é do vazio que conheço, e o silêncio não é ausência: tudo desagregado, fechaduras e chaves inconciliáveis. As doutoras dizem: Patologias do Vazio (quando é do repleto impronunciável, pois a palavra não alcança). “Vivo” é a mente epopocando coelhinhos ou o corpo arfando em desejo? Os dois? Então nunca respirei, nunca estive vivo e nunca respirei “nós” realmente, nunca. Sim, estudarão. Não essa que trago fechada, mas aquela que escorre dos livros como o toddy marrom escorre do copo depois de liquidificado.
Um, um o fará com devida delicadeza, e esse,Clara, esse enganará com as palavras de impertinência toda uma etapa dessa pupa que é o Ser, esse vai buscar no mundo o que nunca esteve, nunca estará.

 Só foram preciso 10 segundos em Last.fm pra que  me despertasse a  atenção e fizesse criar algum tipo de expectativa e esperança num rasgo de voz para o que se seguiria.O que se seguiu foi um mocinho de  ar melancolico com uma linda voz e o seu projeto Beirut que foi pra mim a grande surpresa desse final de ano.E esse mocinho chamado Zach Condon canta tão delicadamente como se encontrasse na boca de cena a declamar e os coros a imprimirem um carácter trágico a toda a teatralidade que se ouve e sente nas suas canções.Beirut(nome do projeto) é uma banda de lindissímas orquestrações, onde violinos, conjuntos de sopros, acordeões, entrelaçam uns pelos outros, apaixonam-se enquanto bebem um café com bolachas juntos, desiludem-se mutuamente e eu aqui a assistir a tudo isto tão bem coordenado.Por um momento lembrou me Los Hermanos .“The Flying Club Cup” inicialmente remete-nos para o México, até que o acordeão assume maior destaque e leva-nos para Paris (ou antes Nantes?), e a forma como Zach Condon se vai multiplicando entre músicas regionais do leste europeu  e as aglomera para criar canções que fariam sentido em qualquer lugar e em qualquer altura, é fascinante.

Tim Burton

Agosto 11, 2007

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Tim Burton é o grande diretor da sessão da tarde. E mais que isso: Tim Burton é um grande diretor. Vez ou outra, comete bobagens, vide “Planeta dos Macacos”, preciso dizer, é um mistério. Por que diabos alguém quereria filmar ou ver um filme cujos atores são homens fantasiados de macacos? Há algum fetiche nisso. No entanto, macacos me mordam à parte, não vou usar rudimentos de Freud para denegrir o diretor, se quero elogiá-lo. O caso é que Tim Burton tem um terreno delimitado, dentro do que se convencionou chamar de cultura pop, onde ele pode ser o que há de melhor em entretenimento misturado à poesia – à poesia do Romantismo, é bom que se diga – e ao fantástico. “Edward Mãos de Tesoura” é o auge desse estilo inconfundível, mas já em “Batman” os traços essenciais se tinham delimitado: a paisagem sombria, o personagem cuja ternura é corroída pela inadaptação e pela incomunicabilidade, e sempre um toque tragicômico barulhento que perturba o silêncio predominante. O diretor, logicamente, tem consciência do espaço onde pôde e pode alcançar o maravilhoso, e tentou um retorno em “A Lenda Do Cavaleiro Sem Cabeça”, recrutando Johnny Depp outra vez. Não obteve sucesso. O filme é bom, mas o melhor de ambos – Depp e Burton – está mesmo no sombrio daquele castelo encantado, à vista de todos, mas que a cidade provinciana insiste em ignorar, e está na ternura da figura pálida de Edward, em seu modo de caminhar, acanhado, em seu olhar melancólico, na neve que inventa para que Winona Ryder sonhe. Porque não podemos esquecer: além da bela e triste lenda de Edward, que é a história íntima de todos nós, devemos celebrar Tim Burton por nos ter inventado Edward.

(e para que fique claro de uma vez por todas: “Edward Mãos de Tesoura” me esfatia em pequenos pedacinhos de melancolia, saudade e eterno desejo de beleza)

Luto duplo

Agosto 1, 2007

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Luto, de novo

A morte deixou duas vítimas seguidas no panteão do cinema: Bergman e Antonioni. O sueco não gostava do italiano, não sei se a recíproca era verdadeira, mas é interessante que uma coisa os unia, cada qual em seu estilo – foram dos cineastas mais dedicados em entender as mulheres, e utilizavam um realismo das emoções que era da ordem da alma, interior, enquanto se permitiam estilizações exteriores.No artigo publicado no New York Times sobre a morte de Bergman, Mervyn Rothstein transcreve a seguinte declaração do cineasta: “Quando eu era jovem, tinha um medo extremo de morrer. Mas agora penso que ela faz parte de um arranjo muito, muito sábio… 

 Fanny e Alexander pode até não ser o melhor filme de Ingmar Bergman, mas para mim tem um sabor especial, já que foi lá em 2004, na casa da minha tia Ana, meu primeiro contato com o cineasta e logo me encantei. Aqui ele faz sua enciclopédia, utilizando vários temas já explorados em suas obras mais antigas, ao meio de um conflito de gerações e épocas, no qual eras se confundem e emoções são reprimidas. Tudo é possível e provável, pois tempo e espaço não existem de forma ordenada, criando crises de identidade e personalidade que culminam na obrigatória referência a Deus, em uma das personagens mais fortes e interessantes da carreira do diretor.