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Combino muitas vezes encontros com Wong Kar-Wai de forma quase insistente. Não consigo libertar-me dos seus jogos mentais, dos seus heróis e da feminilidade da sua câmara. A visualização é exigente e erótica acompanhada por bandas sonoras surpreendentes e inesquecíveis que nos levam para um tempo e um espaço que nunca queremos abandonar.
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Sob o signo do duplo

Novembro 7, 2007

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“Toda minha vida tive a impressão de estar aqui e em outro lugar”, diz Véronique, no final de A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.
… deus, como eu a entendo!

“Tudo no mundo é duplo: visível e invisível
O visível, de resto, interessa sempre muito menos.” Cecília Meireles

Veronique, a moça francesa do filme do Kieslowski, como que movida por uma força subjetiva, um desses inexplicáveis sentimentos que surgem do desejo de uma compreensão além da superfície das coisas, pressente a existência de um duplo de si mesma. A minha busca é menos intensa, mas ainda subjetiva. Não procuro um eu paralelo, vivendo anônimo em alguma parte do mundo. O que eu procuro é, provavelmente, a procura de todos: auto-conhecimento. Mas estou falando de um auto-conhecimento bem mais profundo do que o simples ato de examinar levemente qualidades e defeitos, como quem desenvolve um mapa astral repleto de características e probabilidades. Esse auto-conhecimento tem que ir além do campo conhecido e beira esses sentimentos que a gente não sabe o nome. Talvez essa busca se dê aos poucos, talvez seja preciso insitir nela, abrindo um espaço sempre para dentro, instrospectivo, difícil porque inexplorado ainda. Há tanto de mim que desconheço, há tanto que nem suspeito. O que eu quero mesmo, por hora, é encontrar esse fio invísivel que conecta as pessoas umas às outras, porque o meu está perdido nesse emaranhado confuso que é espírito, alma, consciência cósmica, o diabo. Esse emaranhado que está realmente emaranhado e realmente confuso.

Tim Burton

Agosto 11, 2007

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Tim Burton é o grande diretor da sessão da tarde. E mais que isso: Tim Burton é um grande diretor. Vez ou outra, comete bobagens, vide “Planeta dos Macacos”, preciso dizer, é um mistério. Por que diabos alguém quereria filmar ou ver um filme cujos atores são homens fantasiados de macacos? Há algum fetiche nisso. No entanto, macacos me mordam à parte, não vou usar rudimentos de Freud para denegrir o diretor, se quero elogiá-lo. O caso é que Tim Burton tem um terreno delimitado, dentro do que se convencionou chamar de cultura pop, onde ele pode ser o que há de melhor em entretenimento misturado à poesia – à poesia do Romantismo, é bom que se diga – e ao fantástico. “Edward Mãos de Tesoura” é o auge desse estilo inconfundível, mas já em “Batman” os traços essenciais se tinham delimitado: a paisagem sombria, o personagem cuja ternura é corroída pela inadaptação e pela incomunicabilidade, e sempre um toque tragicômico barulhento que perturba o silêncio predominante. O diretor, logicamente, tem consciência do espaço onde pôde e pode alcançar o maravilhoso, e tentou um retorno em “A Lenda Do Cavaleiro Sem Cabeça”, recrutando Johnny Depp outra vez. Não obteve sucesso. O filme é bom, mas o melhor de ambos – Depp e Burton – está mesmo no sombrio daquele castelo encantado, à vista de todos, mas que a cidade provinciana insiste em ignorar, e está na ternura da figura pálida de Edward, em seu modo de caminhar, acanhado, em seu olhar melancólico, na neve que inventa para que Winona Ryder sonhe. Porque não podemos esquecer: além da bela e triste lenda de Edward, que é a história íntima de todos nós, devemos celebrar Tim Burton por nos ter inventado Edward.

(e para que fique claro de uma vez por todas: “Edward Mãos de Tesoura” me esfatia em pequenos pedacinhos de melancolia, saudade e eterno desejo de beleza)

Luto duplo

Agosto 1, 2007

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Luto, de novo

A morte deixou duas vítimas seguidas no panteão do cinema: Bergman e Antonioni. O sueco não gostava do italiano, não sei se a recíproca era verdadeira, mas é interessante que uma coisa os unia, cada qual em seu estilo – foram dos cineastas mais dedicados em entender as mulheres, e utilizavam um realismo das emoções que era da ordem da alma, interior, enquanto se permitiam estilizações exteriores.No artigo publicado no New York Times sobre a morte de Bergman, Mervyn Rothstein transcreve a seguinte declaração do cineasta: “Quando eu era jovem, tinha um medo extremo de morrer. Mas agora penso que ela faz parte de um arranjo muito, muito sábio… 

 Fanny e Alexander pode até não ser o melhor filme de Ingmar Bergman, mas para mim tem um sabor especial, já que foi lá em 2004, na casa da minha tia Ana, meu primeiro contato com o cineasta e logo me encantei. Aqui ele faz sua enciclopédia, utilizando vários temas já explorados em suas obras mais antigas, ao meio de um conflito de gerações e épocas, no qual eras se confundem e emoções são reprimidas. Tudo é possível e provável, pois tempo e espaço não existem de forma ordenada, criando crises de identidade e personalidade que culminam na obrigatória referência a Deus, em uma das personagens mais fortes e interessantes da carreira do diretor.

BELEZA ROUBADA

Julho 24, 2007

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“Não se desculpe.
Eu gostei de ver,
toda essa beleza…
Não temos Sorte ?”

“O amor não existe,
somente as provas de amor”

Bucólico.
Poético.
Sublime.
Bertolucci.

Um dos meus preferidos.
tem pelo menos umas três cenas inesquecíveis:
Liv Tyler (perfeita) andando pelas belíssimas paisagens Italianas ao som de Glory Box…
Escrevendo (e logo depois queimando) pequenos versos…
e a despedida do poeta (Jeremy Irons, brilhante)…

A Beleza é realmente essencial…

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“Cuentan que hace mucho, mucho tiempo en el reino subterráneo, donde no existe la mentira ni el dolor, vivía una princesa que soñaba con el mundo de los humanos.”
… assim nos é introduzido o Mundo imaginário d’ El Laberinto del Fauno, caracterizado tanto por uma surpreendente e misteriosa beleza como por um ambiente mítico que oscila entre a sedução e a repulsa.
Guillermo Del Toro é o cara. Nasceu em Guadalara, no México e conquistou o meu coração fantástico! Nascer em Guadalajara é tipo ruim, cidadezinha que não tem nada. Imagino ele moleque parecido com Ofelia, a menina protagonista do maravilhoso O Labirinto do Fauno que, no final da Guerra Civil Espanhola, muda-se com a mãe grávida para um moinho no meio do nada porque seu padastro é um capitão do exército franquista com a missão de capturar uns últimos rebeldes escondidos na floresta perto do tal moinho. A menina não quer morar no meio do mato, muito menos com um pseudo-hitler como padastro. Mas a mãe tá grávida,e nada faz. Então a menina lê. Lê muitos contos de fadas, histórias fantásticas e imagina se fora de lá. Ou melhor, usa essas histórias pra sair um pouco de lá. Já no caminho de chegada encontra uma fada/libélula que a leva a um labirinto de pedra abandonado perto de sua casa/moinho e lá Ofelia descobre um mundo que só ela pode ver e nele viver: ela é a reencarnação da princesa do submundo que tempos atrás resolveu, por curisidade infantil, subir ao mundo dos vivos e assim se tornou uma mortal; rei, rainha, seus pais, esperam seu regresso, mas para ela provar que é a princesa, precisa realizar 3 provas sob a atenção do fauno.
Isso tudo na verdade é uma história a parte, a fuga da menina em meio ao inferno em que vive de soldados e tiros e explosões e da mãe que passa mal com a gravidez perigosa e do padrasto tirano. Enquanto ela pode, ela faz portas de giz e atravessa paredes, segue as fadas que agora têm a forma de um desenho de um de seus livros, corre de monstros com olhos nas mãos e ajuda a dor da mãe colocando sob sua cama uma erva que se parece com um feto que se move. Ofelia na verdade vive em seu mundinho, o mundinho das crianças, quase alheias à realidade à sua volta. E Ofelia não faz nada mais nada mesmo que tornar seu mundinho particular mais particular e mais interessante ainda.
Na sanguinária e desumana realidade que habita, o mundo subterraneo revela-se como uma escapatória promissora – começar uma nova vida e permanecer criança. Mas se a vivência é dolorosa, o modo como se apresenta a alternativa é também assustador e medonho, escondendo provas horripilantes, tão maldosas como o mundo que a rodeia.Embora a fantasia esteja sempre presente ao longo da história, não é um filme inocente ou puro que se destine a crianças; e ainda que não supere a maldade do real, o mundo criado não se apresenta como inofensivo.A moral que o filme nos mostra é sobre beleza onde realmente devemos encontrar,beleza esta não fisica ou estética mas sim moral,sensitiva,aquela beleza que faz a vida valer a pena.No caso da menina era na forma de princesa que ela só alcançou morrendo embora o fauno e o labirinto fosse da sua mente,ela entendeu que para ser essa “beleza” era necessario um sacrificio,dar a vida por outra e o texto final complementa dizendo que só encontramos quando procuramos no lugar certo.Sempre procuramos um lugar certo para pertencer,sabemos que o que vivemos tá errado,que merecemos bem mais do que essa vida emprestada que é a história íntima de todos nós.Ofelia compreendeu isso de uma certa forma.Porque não podemos esquecer: além da bela e triste lenda de Ofélia, que os sonhos sejam aqueles desejos desesperados do homem, que transbordam e aparecem em seu sono, e contudo apresentam sentimentos tão vivos que parecem experiências reais e o dever de desobecer quando a obediência mostra-se errada ou injusta.Um filme sobre a liberdade  e o eterno desejo de beleza.

 

*Curiosidade

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O homem pálido do labirinto…

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capa do álbum Superpower do Sonic Youth. Coincidência?