Ligações perigosas;

Abril 26, 2008

                                       

Essas potências que a gente tem dentro da gente…

CRUEL – um espetáculo da Cia. de Dança Deborah Colker

por Flávio Tonnetti

 1º Ato objetos cênicos:

corpos: para que surja vida;
facas e pratos e mesa: para que a fome cresça;
um globo de luz: para mover a festa.

 Arte contemporânea é o lugar do sentido, mas a arte, antes de mais nada é o lugar dos sentidos: língua para provar o gosto, mãos para tocar vida, olhos para avistar divisas, sons para encontrar o outro. Como um ballet de sentidos é que o espetáculo de Deborah Colker evolui.
A colcha de retalhos que nos foi proporcionada por técnicas como a collage fez com que a arte contemporânea encontrasse o sentido para além dos sentidos: o sentido da idéia, o significado. Mas este mesmo significado, com a evolução da mesma arte contemporânea, foi se dissolvendo. A arte contemporânea, que nasce e se dissolve, é por isto mesmo, a metáfora da vida.
No entanto, apesar da dissolução dos significados, é sem abrir mão dos sentidos físicos, sem abandonar a vida, que o artista faz sua obra. Não é a esmo que o artista constrói. Ele, portanto, escolhe os elementos que entrarão em cena. E no balé, que é a arte de cruzar espaços com o corpo, esta arte vira metáfora da existência. E é por reunir estas forças que a dança contemporânea tem potência.
É preciso então desconsiderar o que qualquer panfleto de espetáculo possa dizer: não há jogo entre Acaso e Necessidade. Nem acaso nem necessidade, pois que estas são categorias da Razão. E o ballet que presenciamos com a Cia. Deborah Colker é de uma ordem outra: é de paixão e vísceras. É do corpo. Rasguemos os panfletos – este inclusive! Rasguemos com violência os nossos próprios corpos.

Um enorme globo e um salão de baile. Homens lindos e mulheres maravilhosas: eles trajando camisas e calças de bom corte; elas desfilando belíssimos vestidos – conseguem reunir o clássico e o moderno. Está é, inclusive, visível também no figurino, a marca do espetáculo. E dançam como se fossem um conjunto de câmara, com diferentes solos. Buscam fugas e caminhos, que depois se encontram. Há algo de barroco neste espetáculo contemporâneo. E há algo de romântico, como se um violino fosse o lamento de uma coisa que vive em busca de algo.
O baile que se dança, com a valsa ou a pavana, é o lugar do encontro: entre os corpos. É o lugar do encontro com o outro, do encontro com a vida. É o mesmo encontro para o qual somos projetados ao som de música eletrônica, aconteça ele numa noitada em Londres ou num bordel em Amsterdã. É a saída de casa, o filho pródigo no encontro consigo.
E é nesse encontro que podemos ver que temos fome. Corpos se chupam, se chocam, se moem. É com esses corpos que queremos outros. A minha mão nas coxas da bailarina. Não qualquer uma, não todas, não de maneira abstrata, mas de maneira física. Uma entre elas – ou entre eles, já que é um corpo de baile misto – será a escolhida. Será uma escolha certeira, porque o desejar é específico. A minha escolhida, quis cheirá-la, quis retê-la; sua carne em minha carne viva. Eu, que estava ali, tive fome. A vontade é uma, intensa, pulsante, e não se mascara. É um balé sensitivo, um balé lascivo, um balé para iniciados.
E houve a vontade de se libertar, a vontade de correr mais forte, de pular mais alto, de esticar as virilhas. Houve a vontade dos extremos. Vontade de pulo de ponte alta. Vontade de mergulhar em mar aberto. Vontade de matar os pais.
Mas porque são vontades intensas, são vontades precisas; como são precisos os movimentos dos bailarinos. Balé em sincronia – sinfonia bem ensaiada – já que arte contemporânea não é lugar do desleixo, mas das coisas certas. Tecnicamente formidável. Tanto nas coreografias coletivas, quantos na imensa quantidade de desdobramentos em trios, duos e solos. E precisão com a música com a qual se dança – a música que por si só é glória à parte, e que, assim como o figurino, misturou o erudito com o que há de mais moderno: música eletrônica flertando, se intercalando e se fundindo com sons de orquestra.
E nessa pintura toda – misto de Pollock e F. Bacon – aquilo que um dia foi improvisação, mas que virou escolha, atinge seu auge no profundo sofrimento do desespero, que é a condição humana. Impossibilitado de realizar nossos desejos, somos escravos de nossas próprias pernas, de nossas próprias penas: não é mais possível viver como vivemos, em condomínios ou escritórios. É a rua quem nos chama. É a vida quem nos pede.
Entrecortando tudo, há espaço pro silêncio, para que possamos, de dentro dele, avaliar a experiência de estarmos vivos. De ter um corpo. Condenados em nossa pena de continuar existindo, mesmo que rompamos os panfletos, que quebremos janelas, estamos condenados aos nossos próprios desejos. Entraremos em conflito com o outro, para que nos realizemos. Não haverá mais encontro, mas confronto. Luta de faca-só-lâmina, de vida-só-corpo. Sendo devorados todos os dias pelas próprias vontades, e carregando o peso do corpo morro acima, somos à imagem de Prometeus e Sísifos.
A vida, com suas vontades, é cruel.
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2º Ato Objetos cênicos:

corpos: pra que se desfaleça;
espelhos, enormes: pra que se multiplique.

 Com enormes conjuntos de espelhos vazados, a dança segue; ainda. Sem esperanças, os buracos onde vivemos estão lá representados. Nossos hiatos: somos seres sem sentido: bandonéons solitários à procura de um tango argentino. Somos tragédias fugidias. Patéticos como uma guitarra velha, numa música folk das antigas.
E como nos saberemos? Que tipo de coisa ou de bicho? A resposta é negativa: não saberemos. Dançamos num salão cheio, mas estamos sozinhos. O baile é nosso deserto. Mascarado, sei de mim, mas não do outro. Componho meu reflexo a partir do olhar de tantos, mas será que eles existem? Sociologia de corpos, mas não do que é íntimo. Fenecerá qualquer teoria social psicológica. Sou um ser consciente e solitário em meu próprio mundo. E o meu mundo são os meus pensamentos. Jamais pensarei com o que é do outro. Seremos ilhas sem ancoradouro, reflexos de mar em céu, de céu em mar. Mosaicos a serem vistos – mas sem espelhar-se, embora os espelhos sejam tantos.
Estrangeiros em nossa própria terra, exílio de nós mesmos, por mais que busquemos saídas, que inventemos mundos, que multipliquemos olhares, estaremos sempre em cima do muro. Volando como aves, boiando como peixes. À deriva de nós mesmos: somos incerteza.
Agarremo-nos ao pé das esperanças, nos apeguemos ao olhar do outro, inventemos novas histórias: fracasso, fracasso, fracasso. A vida é solidão. É simulacro de outras gentes – mas a verdade, esta também cruel como a vida, é que somos apenas gente sozinha com a gente mesmo.  

Haverá um caminho que nos conduza ao conhecimento, como a filosofia do “conhece-te a ti mesmo” pretendia? A luz é tênue. Talvez exista, mas o tapete não será vermelho, será puído. E cruzaremos o espaço de luz já quando não houver saída: seja a vida mesma ou o palco do teatro – a sendo a última a metáfora da primeira. E cruzaremos em silêncio. Profundo silêncio. Talvez ocorram palmas, talvez com gritaria; mas palmas e absurdos, já não serão ouvidos. Não importa se saímos satisfeitos, o importante é o enquanto, é o período em que vivemos. Nada mais importa além dos espaços de dança que inventamos, nada além do movimento. Assim como importa menos o velório do que a vida vivida.
Mais, muito mais, do que a correta interpretação dos signos, o que interessa é a beleza.

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Deviamos considerar perdido cada dia em que não dançamos pelo menos uma vez.

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Epicuro me

Março 30, 2008

É preciso estar sempre embriagado.
Eis aí tudo: é a única questão.
 Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo
que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão,
é preciso embriagar-vos sem trégua.Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira.
Mas embriagai-vos.E se, alguma vez, nos degraus de um palácio,
sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto,
vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme,
a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala,
perguntai que horas são; e o vento, a onda,
a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão:
“É hora de embriagar-vos!
Para não serdes os escravos martirizados do
Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar!
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira”.
Baudelaire

As palavras,

Março 21, 2008

                               
As palavras têm dignidade – palavra de honra!As palvras têm valor – valem ouro, por isso são roubadas!As palavras são promessas – dou-te a minha palavra!As palavras são gulodice, uma doçura ou azedume – por isso há quem as mastigue e por vezes caem mal!
As palavras são sentença – têm a última palavra !
As palavras são forma, coisa, matéria e objecto – têm peso e gastam-se, pelo que o seu uso deve ser comedido e não banalizado, dispendido em vão!
As palavras fazem sentido mesmo quando são silenciadas e censuradas!
As palavras são sementes geradas no ventre, Jesus! são divinas – por isso Deus se fez verbo!As palavras são sempre revelação – anunciação!
As palavras são sagradas – pelo que incitam o fervor iconoclasta!
As palavras são mulheres, femininas – procriação, provocação, prazer, poder, diplomacia!
 
Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras
disse Ruy Belo

Precisamente a esta hora eu não devia estar aqui. devia estar a abrir uma porta e a deixar entrar o público de sempre, no passo lento de quem vai cumprir uma obrigação. a esta hora, dão pulos de alegria e fogem em passos rápidos, esgueiram-se pelas escadas na fuga a um espectáculo de reposição, substituição, que antes o que estavam à espera do que um de última hora. desconhecem a preocupação e de certeza que inspiram sofregamente o vazio comutado em fragmento de liberdade. a preocupação fica em mim. lençóis e cobertores puxados para trás. o cenário aberto onde ainda estou, não estando. o desenho na almofada, relevo.a cama já devia estar feita, já não devia ser cama, e devia estar já na forma original, sofá. eu já devia estar longe a abrir as palavras dos outros.mas a cama está aberta, desfeita, e é agora o repouso de dois seres desprovidos de preocupações, animais, felizes. de olhos fechados à obrigação.preciso de tempo. tempo para caminhar até à cama ainda por fazer. o momento em que a fizer vai dobrar-me, e ditar a rigidez do que tem de ser feito. adio a subida à superfície. ou melhor, a descida. flutuo na visão de lençóis amarrotados. adio.sucessão de pensamentos embrulhados. o por fazer. saudade. caminhos direitos em confronto com cruzamentos de pernas. entrecruzar do dever com a horizontalidade sem regras. perspectivas que me levam para o ponto de fuga, a cama ainda por fazer. enquanto ela ainda estiver por fazer, dou-me este prazer da multiplicidade de sensações, o frio no estômago, a paragem por caminhos outros, preguiça, sonho, sonhos.mais do que adiar a obrigação, adiar o encontro com outra cama por fazer. ainda. e a ilusão de que ao adiar, a cama ficará sempre por fazer.

Janeiro 18, 2008

          normal_7921.jpg


‘ Num paralelismo quase hipnotico
Entre o que foi e o que é…
Entre tudo o que estava e já não está
E entre tudo o que esta sem ter estado…
Saí de mim por estes dias,
Vi sonhos distantes, desejos…
Vi medos, vi temores…
Vi sorrisos e choros…
Descobri que o tédio,
Se chamava desalento…
E que a tristesa,
Se chamava solidão.
Porque é desalento não acreditar,
E é solidão não me fazer entender… ‘

É preciso que tudo se transforme.

 Só foram preciso 10 segundos em Last.fm pra que  me despertasse a  atenção e fizesse criar algum tipo de expectativa e esperança num rasgo de voz para o que se seguiria.O que se seguiu foi um mocinho de  ar melancolico com uma linda voz e o seu projeto Beirut que foi pra mim a grande surpresa desse final de ano.E esse mocinho chamado Zach Condon canta tão delicadamente como se encontrasse na boca de cena a declamar e os coros a imprimirem um carácter trágico a toda a teatralidade que se ouve e sente nas suas canções.Beirut(nome do projeto) é uma banda de lindissímas orquestrações, onde violinos, conjuntos de sopros, acordeões, entrelaçam uns pelos outros, apaixonam-se enquanto bebem um café com bolachas juntos, desiludem-se mutuamente e eu aqui a assistir a tudo isto tão bem coordenado.Por um momento lembrou me Los Hermanos .“The Flying Club Cup” inicialmente remete-nos para o México, até que o acordeão assume maior destaque e leva-nos para Paris (ou antes Nantes?), e a forma como Zach Condon se vai multiplicando entre músicas regionais do leste europeu  e as aglomera para criar canções que fariam sentido em qualquer lugar e em qualquer altura, é fascinante.

Cat Power

Julho 29, 2007

  “Maybe with a look
But with your mind
But with your mind”  Cat Power