O tempo tem as pernas mais longas do que as minhas.
Corre mais depressa do que eu. Finta-me, passa-me a perna e prega-me rasteiras. E Caio.
Quando me levanto, já sem forças, ergo os meus olhos em direcção à meta, que fica
longe, tão distante… e constato a enormidade de voltas que ainda faltam ser percorridas.
Brrrrrrriiiiimm!
Esgotou-se o tempo! Foi ele o vencedor da partida.
Nem tempo tive de desafiá-lo na corrida, nem de cortar a meta tão pouco…

Fugiu-me

“Quero uma cartola de mágico,
mas que funcione bem, para enfiar nela meu coração
delirante e retirar uma engrenagem melhor.
Quero esconder na manga, na bolsa,
nessa cartola encantada minha alma falida,
a asa quebrada, tanta contradição.
Prefiro um objeto mais útil:
calculadora de emoção, maquininha de escrever,
relógio de sonho preso num lugar.
(Umas peças de metal enfiadas no peito: só o essencial,
para que a cara não desabe de todo no chão).”

Lya Luft

 

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.Tentação sabática.

Este sábado sinto-me particularmente preguiçosa, tão preguiçosa que vou dedicar-me à pura fruição estética das coisas, à sua forma, estrutura e matéria.
Este sábado sinto-me particularmente estupidificada, tão estupidificada que vou renunciar aos conteúdos seculares, sociais e analíticos.
Este sábado está particularmente soalheiro, tão soalheiro que vou percorrer o caminho do inefável gizado pela luz.
Este sábado vou deixar-me levar pelo comboio de corda que fica ali bem perto da Tabacaria.
Este sábado vou prescindir dos porquês e serei mera espectadora das formas das coisas que existem por si só, deixando que a luz seja portadora da sua própria revelação.

Este sábado vou seguir o exemplo de Deus e vou descansar.
Este sábado vou lambuzar as minhas sensações com chocolate.
Este sábado vou sucumbir ao prazer do VER sem pensar em NADA.

Ponto Linha Plano – o prazer da distracção. é fim-de-semana!

Precisamente a esta hora eu não devia estar aqui. devia estar a abrir uma porta e a deixar entrar o público de sempre, no passo lento de quem vai cumprir uma obrigação. a esta hora, dão pulos de alegria e fogem em passos rápidos, esgueiram-se pelas escadas na fuga a um espectáculo de reposição, substituição, que antes o que estavam à espera do que um de última hora. desconhecem a preocupação e de certeza que inspiram sofregamente o vazio comutado em fragmento de liberdade. a preocupação fica em mim. lençóis e cobertores puxados para trás. o cenário aberto onde ainda estou, não estando. o desenho na almofada, relevo.a cama já devia estar feita, já não devia ser cama, e devia estar já na forma original, sofá. eu já devia estar longe a abrir as palavras dos outros.mas a cama está aberta, desfeita, e é agora o repouso de dois seres desprovidos de preocupações, animais, felizes. de olhos fechados à obrigação.preciso de tempo. tempo para caminhar até à cama ainda por fazer. o momento em que a fizer vai dobrar-me, e ditar a rigidez do que tem de ser feito. adio a subida à superfície. ou melhor, a descida. flutuo na visão de lençóis amarrotados. adio.sucessão de pensamentos embrulhados. o por fazer. saudade. caminhos direitos em confronto com cruzamentos de pernas. entrecruzar do dever com a horizontalidade sem regras. perspectivas que me levam para o ponto de fuga, a cama ainda por fazer. enquanto ela ainda estiver por fazer, dou-me este prazer da multiplicidade de sensações, o frio no estômago, a paragem por caminhos outros, preguiça, sonho, sonhos.mais do que adiar a obrigação, adiar o encontro com outra cama por fazer. ainda. e a ilusão de que ao adiar, a cama ficará sempre por fazer.

Colar de páginas

Dezembro 31, 2007

Vai,Clara, vai estudar a ontologia que te fizeram…
Prepararam com graça, com melancolia lusco-fusco, com uma tarja negra que dói, dói como ter nascido outra vez.
E o que fizesse com as páginas,Clara?As deixasse molhar?E depois?
Pendurasse pelos varais?, o sol carcomendo as fibras daquelas folhas, um sol de ouro no lá fora e as folhas ainda úmidas.Por que você não sai dessa casa?
Por que não se concentra? Vai estudar aqueles pingos,
aquelas margens e os espaçamentos duplos, as entrelinhas que se entrechocam.
Vai amar o amor que te devotaram e, sobretudo, o corpo e a mente do outro.Com quem eu falo?Como respiro?Como respiro “nós”?Há uma metafísica na gaveta,
Clara. Pegue-a, cheire-a, rasgue-a em pequenos pedaços, mastigue depois leve à boca.
É a nossa hóstia, nosso sagrado corpo, é o teatro, o espetáculo que assistimos todo o dia naquelas classes velhas, é o corpo de um grego morto, é a nossa herança.Será que estudarão, algum dia, essa ontologia? Será que o farão com a devida delicadeza?
[Responde tudo isso, abra essa gaveta com coragem, com uma coragem que vence…]
Eu guardei as páginas, a caixa, os cadeados, as tramelas… Não me pergunte mais, ela está contida, não quero que encontrem, não quero que saibam, quero a quietude dos meus guardados, dos meus segredos. As páginas, incontáveis, molharam um pouco, todas as filosofias choravam juntas, você entende?.
Mas tranquei as folhas, aqui, no dentro que rasga em átomos, ainda úmidas, para que liquidisfazer. Eu não sei sair da casa, mesmo que eu não more mais aqui, eu nunca a deixo, há um poema debaixo do piso,há paredes verdes,
há um grão de mim mesmo atrás da porta, o grão da minha voz – eu sei, eu sinto que há. Eu dialogo com paredes verdes e o vazio, é do vazio que conheço, e o silêncio não é ausência: tudo desagregado, fechaduras e chaves inconciliáveis. As doutoras dizem: Patologias do Vazio (quando é do repleto impronunciável, pois a palavra não alcança). “Vivo” é a mente epopocando coelhinhos ou o corpo arfando em desejo? Os dois? Então nunca respirei, nunca estive vivo e nunca respirei “nós” realmente, nunca. Sim, estudarão. Não essa que trago fechada, mas aquela que escorre dos livros como o toddy marrom escorre do copo depois de liquidificado.
Um, um o fará com devida delicadeza, e esse,Clara, esse enganará com as palavras de impertinência toda uma etapa dessa pupa que é o Ser, esse vai buscar no mundo o que nunca esteve, nunca estará.

jogo Surrealista

Novembro 27, 2007

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Era uma tarde fria no inferno, eu não tinha nada além da minha cartola e um encarte de vinil do Dark Side of the Moon, que coloquei sob uma lareira e tudo então foi ficando quente, e virando céu. Lembrei-me de um céu que já não existe mais, o de nuvens pálidas que hoje estão cinzas da fumaça que sai a cada piscar de olhos do meu cachorro. Foi então que, sem céu nem inferno pra habitar, caí, caí, caí… até mergulhar numa coisa líquida, viscosa e antiga.
Para esquecer o que realmente eu não tinha, fui me misturando a esse licor que descia pelo ralo da pia e do sangue me desvinculei, posto que era dia. Comi uma maçã que tinha mais gosto de pena que de fruta, peguei meu guarda-chuva para atirar folhas secas no banco de arquitetura mal feita, tão bela quanto minha mão quando fica roxa.
Reuni todas as minhas forças e toda minha coragem, e gritei a única palavra que nunca tinha ousado dizer durante todo esse tempo: colher! E há tempos não grito flores, do mesmo modo que não entrego flores ao tempo. Que se crie um laço entre o tempo e a flor, e continuarei gritando.
Devo pular ou me empurrem então, tão direto do chão ao salgueiro. Dançarei minúcias e reminiscências naquele sombrio solar de escadas rolantes, pérolas fruta-cor comestíveis. Um coração parasita a me guiar pelo algodão denso de chumbo e serragem, no país das dores da paz.

Sob o signo do duplo

Novembro 7, 2007

                        double3.jpg

“Toda minha vida tive a impressão de estar aqui e em outro lugar”, diz Véronique, no final de A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.
… deus, como eu a entendo!

“Tudo no mundo é duplo: visível e invisível
O visível, de resto, interessa sempre muito menos.” Cecília Meireles

Veronique, a moça francesa do filme do Kieslowski, como que movida por uma força subjetiva, um desses inexplicáveis sentimentos que surgem do desejo de uma compreensão além da superfície das coisas, pressente a existência de um duplo de si mesma. A minha busca é menos intensa, mas ainda subjetiva. Não procuro um eu paralelo, vivendo anônimo em alguma parte do mundo. O que eu procuro é, provavelmente, a procura de todos: auto-conhecimento. Mas estou falando de um auto-conhecimento bem mais profundo do que o simples ato de examinar levemente qualidades e defeitos, como quem desenvolve um mapa astral repleto de características e probabilidades. Esse auto-conhecimento tem que ir além do campo conhecido e beira esses sentimentos que a gente não sabe o nome. Talvez essa busca se dê aos poucos, talvez seja preciso insitir nela, abrindo um espaço sempre para dentro, instrospectivo, difícil porque inexplorado ainda. Há tanto de mim que desconheço, há tanto que nem suspeito. O que eu quero mesmo, por hora, é encontrar esse fio invísivel que conecta as pessoas umas às outras, porque o meu está perdido nesse emaranhado confuso que é espírito, alma, consciência cósmica, o diabo. Esse emaranhado que está realmente emaranhado e realmente confuso.

Entre.os.dias.

Agosto 26, 2007

e enquanto as paredes vão e as articulações vão e os bloqueios de escritor vão – e quem disse que isso seria bloqueio? e… escritor? -; eu me pergunto se há alguma música na impossibilidade de enxergar-se nelas?


e aí, as paredes verdes me incomodam.e a natureza, assim, superestimada, me incomoda.

mas eu me acostumo. eu me levanto e digo:

wake me up and leave.
like it always used to be.

Janela do meu quarto

Agosto 8, 2007

                          

No instante em que abro a janela do mesmo quarto, meus coelhinhos voltam a me atormentar

olhando a única parede verde tomando meu toddy, a cidade dorme, enquanto meu sono dispersa e dá espaço aos dilúvios internos que dão voltas e voltas a fio

sento e ouço a mesma música, que me guia nessas noites angustiantes, e nostálgicas de certa forma

me desculpe tantos rodeios, mas no meu ponto de vista, não há provas suficientes de que as palavras expliquem, ou sequer esboçem qualquer pensamento em sua forma mais bruta, das mais variadas interpretações

neste diálogo solitário, entre mim e a parede, eu continuo a observar uma cidade que ainda dorme e muitos sonham, afujentando alguns de meus tormentos

finalmente dou meu último gole, sabendo que amanhã mais um toddy virá e mais coelhinhos  me visitarão enquanto olho a mesma parede verde

 

p.s/preciso vomitar coelhinhos.

Estive pensando…

Agosto 2, 2007

                            city_blues.jpg                                                  

Eu nunca fico melancólica por mais de trinta minutos. Pelo menos não quando o assunto da melancolia é proposto por reflexões sobre a vida, sobre a passagem do tempo, ou sobre “como as coisas estão piorando”. Essa melancolia só suporto por meia hora, no máximo. Quinze minutos, na verdade. Talvez o tempo de escrever um post para este blog: depois de escrito, se fica bem escrito, eu fico satisfeita e a melancolia e eu apertamos as mãos. Ela me diz: “Bom trabalho, Ana”, ao que eu respondo: “Não conseguiria sem você, cherie”. Ela fica um tanto ruborizada e se despede, como aquelas músicas que não exatamente terminam, que apenas vão diminuindo de volume, aos poucos. Mas isso é coisa rara: na verdade, quase tudo que se escreve com sentimento nas pontas dos dedos é péssimo. Por isso os poetas evocam as Musas, filhas da Memória: escreve-se relembrando, o que é diferente, é bom que se diga, de escrever para relembrar. O que está escrito, parafraseando T.S. Eliot, é eternamente presente e irredimível. E se se pudesse pular para dentro do texto e morar clandestinamente dentro de alguma palavra, nós também seríamos.

P.s: se eu precisasse escolher, eu quereria morar dentro da palavra “azul”: parece calma e distante.
E você?

Cat Power

Julho 29, 2007

  “Maybe with a look
But with your mind
But with your mind”  Cat Power

“E se você fosse embora, por exemplo, se partisse sem olhar para trás, assumindo a solidão, sabendo que pode ser um erro, um grave erro, mas que você se sentiria bem assim mesmo, faria isso? Perderia a segurança, mas o que significa estar seguro? Alguém está? Você poderia admitir, sem se enganar, que realmente está seguro?” – do livro Apanhador No Campo de Centeio

 

eu costumo espalhar minhas fotos pela casa, todas no chão e sentar no sofá para me ver.eu faço isso sempre quando quero ficar perto de mim, eu lembro bem de uma foto em especial na qual eu sempre coloco no canto direito, pelo simples motivo de ter que virar o rosto para ver, sempre achei isso tão curioso. pois o ponto de vista é algo totalmente diferente, mesmo nos meus maiores sentimentos efemeros tinha a certeza, de que eu não estava em casa.

p.s/:Ana Carla em crise de egocentrismo – bom, é isso aí! 😀

 

É HOJE.

Julho 20, 2007

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