Choveu cedo em mim

Maio 6, 2008

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

J. Cortázar

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Foi naquela esquina que esquartejei o segredo. Talvez não fosse assim tão secreto, mas quis esquartejá-lo ali mesmo. Tinha de ser aí. Tinha de ser nesse instante. Um segredo ainda tão novo, hesitante, dormente. Mas escandalosamente ávido de ser atirado contra uma esquina, vontade de saber qual o desenho gravado no ângulo branco, na lâmina. Em quantas partes o cortaria, quantas partes ficariam por cortar. Já não podia continuar escondido. E as cordas dos arames vibraram com um vento inusitado e estranho, e as palavras soltaram-se e rasgaram-no. Morto o segredo, ficou apenas o vento, cada vez mais forte, estranhamente quente. E silêncio. Só silêncio dentro do vento em espiral, o pó a redemoinhar. E nós lá dentro, parados, e o silêncio. E os nós dos meus dedos dentro dos bolsos, e os teus braços à minha volta invisíveis, o abraço que não, que nunca chegou. À volta do meu corpo hirto, as mãos nos bolsos, apenas o vento. Porquê o vento… talvez se tivesse gesticulado as mãos tivessem empurrado o segredo com mais força, e ele tivesse rodopiado na espiral que rodeava os nossos corpos parados naquela esquina. Talvez. Mas eu sabia que não havia muito a esperar, e as mãos nos bolsos sabiam que não valia de nada enlaçar o vento inesperado, outras mãos nãos as agarrariam numa espiral de carícias. Deixar as mãos nos bolsos foi fechar em mim esperanças fictícias. E ainda bem que assim foi. Ficaria apenas com as mãos a abanar no vento cada vez mais ondulantemente veloz. Porque não abriste os meus bolsos e não as resgataste do sufoco. Passou. O segredo já não era só meu. E o vento despenteava-me os cabelos, cortina nos meus olhos, e talvez por isso não tivesse percebido o que farias tu com o segredo. Por entre os cabelos finos, que a mão saída do bolso afastava, pude entrever o teu silêncio, o teu rosto opaco, a tua vontade de ir embora, sozinho, e ao mesmo tempo a despedida lentamente adiada. O abraço, enfim. Opaco, também. E o segredo estropiado caiu em espiral em cima de mim, com fios soltos de intranquilidade que não soubeste sossegar. O sufoco. E o teu pedido, apenas isso, de encontros, palavras, sorrisos, mas em esquinas dos outros, nas esquinas de todos. Espraiou-se em mim a raiva de ter aberto assim o bolso do meu segredo. Via em ti os indecisos, os confusos, os controlados, os calmos, os seguros desígnios de um compasso tão irregular como as batidas do meu coração. E por fim fomos embora, para longe daquela esquina onde desenterrei o segredo para nada, tornado pó. Fui para casa, levava nos bolsos a tua falta, mas sabia-te longe do momento em que quis trazer-te para os meus ponteiros. Os teus só pediam descanso. E não marcaram a hora. E não marcaram outra hora. E foste embora, sem nenhum sinal de perturbação, incómodo, e eu fiquei com uma réstia de ridícula esperança de que desses corda ao teu relógio, porque ouvia na janela as pancadas do vento fora de horas. Esperei absurdamente por uma palavra transparente como o barulho do vento. Mas as palavras continuaram iguais, raras, misteriosas, cansadas, normais. Resolvi esperar. Parar. Maior do que eu a vontade de te sacudir, vontade de ser vento, de manhã, de noite, de tarde. Até que enfim percebi que mesmo o vento tem dignidade, e não aparece sempre com a mesma intensidade. Mais leve, mais suave, de repente grave. E perceber isto foi arrebatar o vento para dentro de mim. Foi perceber que as árvores não balançam com o vento. Que secretamente devo voltar a ser árvore. Árvore. E que é o vento que balança à volta das árvores.

O tempo tem as pernas mais longas do que as minhas.
Corre mais depressa do que eu. Finta-me, passa-me a perna e prega-me rasteiras. E Caio.
Quando me levanto, já sem forças, ergo os meus olhos em direcção à meta, que fica
longe, tão distante… e constato a enormidade de voltas que ainda faltam ser percorridas.
Brrrrrrriiiiimm!
Esgotou-se o tempo! Foi ele o vencedor da partida.
Nem tempo tive de desafiá-lo na corrida, nem de cortar a meta tão pouco…

Fugiu-me

“Quero uma cartola de mágico,
mas que funcione bem, para enfiar nela meu coração
delirante e retirar uma engrenagem melhor.
Quero esconder na manga, na bolsa,
nessa cartola encantada minha alma falida,
a asa quebrada, tanta contradição.
Prefiro um objeto mais útil:
calculadora de emoção, maquininha de escrever,
relógio de sonho preso num lugar.
(Umas peças de metal enfiadas no peito: só o essencial,
para que a cara não desabe de todo no chão).”

Lya Luft