.Tentação sabática.

Este sábado sinto-me particularmente preguiçosa, tão preguiçosa que vou dedicar-me à pura fruição estética das coisas, à sua forma, estrutura e matéria.
Este sábado sinto-me particularmente estupidificada, tão estupidificada que vou renunciar aos conteúdos seculares, sociais e analíticos.
Este sábado está particularmente soalheiro, tão soalheiro que vou percorrer o caminho do inefável gizado pela luz.
Este sábado vou deixar-me levar pelo comboio de corda que fica ali bem perto da Tabacaria.
Este sábado vou prescindir dos porquês e serei mera espectadora das formas das coisas que existem por si só, deixando que a luz seja portadora da sua própria revelação.

Este sábado vou seguir o exemplo de Deus e vou descansar.
Este sábado vou lambuzar as minhas sensações com chocolate.
Este sábado vou sucumbir ao prazer do VER sem pensar em NADA.

Ponto Linha Plano – o prazer da distracção. é fim-de-semana!

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Ligações perigosas;

Abril 26, 2008

                                       

Essas potências que a gente tem dentro da gente…

CRUEL – um espetáculo da Cia. de Dança Deborah Colker

por Flávio Tonnetti

 1º Ato objetos cênicos:

corpos: para que surja vida;
facas e pratos e mesa: para que a fome cresça;
um globo de luz: para mover a festa.

 Arte contemporânea é o lugar do sentido, mas a arte, antes de mais nada é o lugar dos sentidos: língua para provar o gosto, mãos para tocar vida, olhos para avistar divisas, sons para encontrar o outro. Como um ballet de sentidos é que o espetáculo de Deborah Colker evolui.
A colcha de retalhos que nos foi proporcionada por técnicas como a collage fez com que a arte contemporânea encontrasse o sentido para além dos sentidos: o sentido da idéia, o significado. Mas este mesmo significado, com a evolução da mesma arte contemporânea, foi se dissolvendo. A arte contemporânea, que nasce e se dissolve, é por isto mesmo, a metáfora da vida.
No entanto, apesar da dissolução dos significados, é sem abrir mão dos sentidos físicos, sem abandonar a vida, que o artista faz sua obra. Não é a esmo que o artista constrói. Ele, portanto, escolhe os elementos que entrarão em cena. E no balé, que é a arte de cruzar espaços com o corpo, esta arte vira metáfora da existência. E é por reunir estas forças que a dança contemporânea tem potência.
É preciso então desconsiderar o que qualquer panfleto de espetáculo possa dizer: não há jogo entre Acaso e Necessidade. Nem acaso nem necessidade, pois que estas são categorias da Razão. E o ballet que presenciamos com a Cia. Deborah Colker é de uma ordem outra: é de paixão e vísceras. É do corpo. Rasguemos os panfletos – este inclusive! Rasguemos com violência os nossos próprios corpos.

Um enorme globo e um salão de baile. Homens lindos e mulheres maravilhosas: eles trajando camisas e calças de bom corte; elas desfilando belíssimos vestidos – conseguem reunir o clássico e o moderno. Está é, inclusive, visível também no figurino, a marca do espetáculo. E dançam como se fossem um conjunto de câmara, com diferentes solos. Buscam fugas e caminhos, que depois se encontram. Há algo de barroco neste espetáculo contemporâneo. E há algo de romântico, como se um violino fosse o lamento de uma coisa que vive em busca de algo.
O baile que se dança, com a valsa ou a pavana, é o lugar do encontro: entre os corpos. É o lugar do encontro com o outro, do encontro com a vida. É o mesmo encontro para o qual somos projetados ao som de música eletrônica, aconteça ele numa noitada em Londres ou num bordel em Amsterdã. É a saída de casa, o filho pródigo no encontro consigo.
E é nesse encontro que podemos ver que temos fome. Corpos se chupam, se chocam, se moem. É com esses corpos que queremos outros. A minha mão nas coxas da bailarina. Não qualquer uma, não todas, não de maneira abstrata, mas de maneira física. Uma entre elas – ou entre eles, já que é um corpo de baile misto – será a escolhida. Será uma escolha certeira, porque o desejar é específico. A minha escolhida, quis cheirá-la, quis retê-la; sua carne em minha carne viva. Eu, que estava ali, tive fome. A vontade é uma, intensa, pulsante, e não se mascara. É um balé sensitivo, um balé lascivo, um balé para iniciados.
E houve a vontade de se libertar, a vontade de correr mais forte, de pular mais alto, de esticar as virilhas. Houve a vontade dos extremos. Vontade de pulo de ponte alta. Vontade de mergulhar em mar aberto. Vontade de matar os pais.
Mas porque são vontades intensas, são vontades precisas; como são precisos os movimentos dos bailarinos. Balé em sincronia – sinfonia bem ensaiada – já que arte contemporânea não é lugar do desleixo, mas das coisas certas. Tecnicamente formidável. Tanto nas coreografias coletivas, quantos na imensa quantidade de desdobramentos em trios, duos e solos. E precisão com a música com a qual se dança – a música que por si só é glória à parte, e que, assim como o figurino, misturou o erudito com o que há de mais moderno: música eletrônica flertando, se intercalando e se fundindo com sons de orquestra.
E nessa pintura toda – misto de Pollock e F. Bacon – aquilo que um dia foi improvisação, mas que virou escolha, atinge seu auge no profundo sofrimento do desespero, que é a condição humana. Impossibilitado de realizar nossos desejos, somos escravos de nossas próprias pernas, de nossas próprias penas: não é mais possível viver como vivemos, em condomínios ou escritórios. É a rua quem nos chama. É a vida quem nos pede.
Entrecortando tudo, há espaço pro silêncio, para que possamos, de dentro dele, avaliar a experiência de estarmos vivos. De ter um corpo. Condenados em nossa pena de continuar existindo, mesmo que rompamos os panfletos, que quebremos janelas, estamos condenados aos nossos próprios desejos. Entraremos em conflito com o outro, para que nos realizemos. Não haverá mais encontro, mas confronto. Luta de faca-só-lâmina, de vida-só-corpo. Sendo devorados todos os dias pelas próprias vontades, e carregando o peso do corpo morro acima, somos à imagem de Prometeus e Sísifos.
A vida, com suas vontades, é cruel.
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2º Ato Objetos cênicos:

corpos: pra que se desfaleça;
espelhos, enormes: pra que se multiplique.

 Com enormes conjuntos de espelhos vazados, a dança segue; ainda. Sem esperanças, os buracos onde vivemos estão lá representados. Nossos hiatos: somos seres sem sentido: bandonéons solitários à procura de um tango argentino. Somos tragédias fugidias. Patéticos como uma guitarra velha, numa música folk das antigas.
E como nos saberemos? Que tipo de coisa ou de bicho? A resposta é negativa: não saberemos. Dançamos num salão cheio, mas estamos sozinhos. O baile é nosso deserto. Mascarado, sei de mim, mas não do outro. Componho meu reflexo a partir do olhar de tantos, mas será que eles existem? Sociologia de corpos, mas não do que é íntimo. Fenecerá qualquer teoria social psicológica. Sou um ser consciente e solitário em meu próprio mundo. E o meu mundo são os meus pensamentos. Jamais pensarei com o que é do outro. Seremos ilhas sem ancoradouro, reflexos de mar em céu, de céu em mar. Mosaicos a serem vistos – mas sem espelhar-se, embora os espelhos sejam tantos.
Estrangeiros em nossa própria terra, exílio de nós mesmos, por mais que busquemos saídas, que inventemos mundos, que multipliquemos olhares, estaremos sempre em cima do muro. Volando como aves, boiando como peixes. À deriva de nós mesmos: somos incerteza.
Agarremo-nos ao pé das esperanças, nos apeguemos ao olhar do outro, inventemos novas histórias: fracasso, fracasso, fracasso. A vida é solidão. É simulacro de outras gentes – mas a verdade, esta também cruel como a vida, é que somos apenas gente sozinha com a gente mesmo.  

Haverá um caminho que nos conduza ao conhecimento, como a filosofia do “conhece-te a ti mesmo” pretendia? A luz é tênue. Talvez exista, mas o tapete não será vermelho, será puído. E cruzaremos o espaço de luz já quando não houver saída: seja a vida mesma ou o palco do teatro – a sendo a última a metáfora da primeira. E cruzaremos em silêncio. Profundo silêncio. Talvez ocorram palmas, talvez com gritaria; mas palmas e absurdos, já não serão ouvidos. Não importa se saímos satisfeitos, o importante é o enquanto, é o período em que vivemos. Nada mais importa além dos espaços de dança que inventamos, nada além do movimento. Assim como importa menos o velório do que a vida vivida.
Mais, muito mais, do que a correta interpretação dos signos, o que interessa é a beleza.

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Deviamos considerar perdido cada dia em que não dançamos pelo menos uma vez.

Ninharia reles. pechincha. bagatela. amálgama. massificada. industrializada.mofo.naftalina.
1.50. colorido agressivo. estonteante. devaneio. lúdico. sonoro. contínuo. ruído. apertado.
explosivo. em saco. saco. ensaco. asfixia. vicia. consumo. consumismo. médio. mediana. razoável. gomas. maquilhagem. palitos. panelas de pressão. shop suey. remexido. despe. veste. partido. rasgado. apertado. acossado. cingido. descuidado. confusão.confusa. agressivo. cores. sagrado. profano.reprodução.contrafeito.sem originalidade. ah!. hihi. oh… plin!plin!. partido. quebrado.embalado. rasgado. corantes. conservantes. dá jeito. ao jeito se dá. achado. comprado. expoliado. explorado. artificial.mas lá. existe sempre um sorriso. uma partilha. habita.ainda que ninguém a compreenda. a chinesinha da caixa. encaixada. afunilada. há sempre um sorriso.sincero. verdadeiro.autêntico.original. gosto dos chineses.todavia não consigo gostar de lojas chinesas. a evidência.de mim mesma. assusta-me. aparição. revelação do amontoado. denso. dos meus pensamentos. assusta-me. que cabeça a minha.ninharia reles. pechincha. amálgama. um dia as prateleiras caem.as gavetas quebram-se.pelo facto de não conseguirem suportar tanto peso. existe melhor definição?.existe?.?.?.?.assim fico quando entro numa loja de chineses. atarantada.de tudo ver.mexer. e não querer nada. ser nada.ai a minha cabecita.

Pensamento a retalho 

 

Rouge

Abril 7, 2008

                   

[vermelho-feminino-vivo-encarnado-de-escarlate-da-cor-do-sangue-vivo-
do-rubor-do-fervor-da-dor-do-ardor- do-dorido-condoído-enfurecido-contorcido- ferido-dorido-agudizante-dilacerante-forte-da-amante- vermelho-feminino-vivo-encarnado-impulsivo-obsessivo-
possessivo-abrasivo-expressivo-dramático-exacerbado
assim
é a cor dissonante dos meus ponteiros
vermelhos-corrosivos-estridentes-ardentes
assim
é o meu tempo
vermelho-feminino-vivo-encarnado- de-escarlate-da-cor-do-sangue-vivo-
do-rubor-do-fervor-da-dor-do-ardor- do-dorido-condoído-enfurecido-contorcido- ferido-dorido-agudizante-dilacerante-forte-da-amante- vermelho-feminino-vivo-encarnado-impulsivo-obsessivo-
possessivo-abrasivo-expressivo-dramático-exacerbado
assim
é-assim-sou-assim-pueril-quase-infantil-quase-quase-sem remédio-insanável-não-quero-remédio- gosto-do-sorriso-do-meu-sorriso-ainda-que-ferido-
sem-rumo-sem-fio-de-prumo-sem-
-vermelho-feminino-vivo-encarnado]

Árvores,

Abril 6, 2008

 As árvores hoje estão
Diferentes, despidas.
Foram mãos que lhes
Rasgaram as vestes compridas
E frágeis.
Mais nuas, mantém os
Braços erguidos para o alto.
Mais ao fundo, um prédio
Em construção.
É mais alto do que as
Árvores, mas daqui
Os braços da árvore
Ultrapassam-no,
Tesos e esguios.
São mãos que o
Erguem. Ágeis.
Tijolos sobre tijolos.
Um xadrez monótono
E sem brilho.
Chegará o dia em que
Os tijolos ficarão
Submersos por uma
Tinta que o tempo
Se encarregará de descascar.
E nunca será mais alto do que é agora.
E nunca será mais alto
Do que esta pequena
Árvore, mais perto daqui,
Que o tempo se encarregará
De vestir,
Com vestes viçosas
E tintas que
Escorrerão
Para o alto.

Death Life

Abril 1, 2008

                                          

“(…) A explicação de nós, do que fazemos e vivemos, é tão ridícula. No fim de contas apenas constatamos. Mas inventar o porquê, formular uma lei dá-nos a pequena ilusão de dominarmos o desconhecido. Não dominamos nada: conhecemos apenas a nossa fatalidade.
– A vida é estúpida, Ema, não tem «porquê». Os actos essenciais da vida realizamo-los com os olhos fechados: o prazer da boa música, ou da boa mesa, ou o prazer amoroso, ou a união com Deus. Até mesmo, se quiser, o próprio «descomer». Tudo o que é essencial é cego. Fechamos sempre os olhos. É por isso que no-los fecham quando morremos, se os deixamos abertos. (…)”

Vergílio Ferreira, in Alegria Breve

 O que vejo… o que vejo…

Que até na vida existe um pouco da morte. Que com o crescimento (na vida, no sofrimento)

nos vamos morrendo aos poucos. Que a cor da morte consegue estar presente até no cenário mais feliz. Mesmo ao lado do rubor das maçãs do rosto.

Dime lo que ves!! Dime lo que ves!…Dime. Eu vejo a Sagrada Família na margem da vida!Dime lo que ves!Dime!

 

Há nisto um mistério que me desvirtua e me oprime.

E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio

de mim.