Epicuro me

Março 30, 2008

É preciso estar sempre embriagado.
Eis aí tudo: é a única questão.
 Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo
que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão,
é preciso embriagar-vos sem trégua.Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira.
Mas embriagai-vos.E se, alguma vez, nos degraus de um palácio,
sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto,
vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro,
ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme,
a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala,
perguntai que horas são; e o vento, a onda,
a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão:
“É hora de embriagar-vos!
Para não serdes os escravos martirizados do
Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar!
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira”.
Baudelaire
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As palavras,

Março 21, 2008

                               
As palavras têm dignidade – palavra de honra!As palvras têm valor – valem ouro, por isso são roubadas!As palavras são promessas – dou-te a minha palavra!As palavras são gulodice, uma doçura ou azedume – por isso há quem as mastigue e por vezes caem mal!
As palavras são sentença – têm a última palavra !
As palavras são forma, coisa, matéria e objecto – têm peso e gastam-se, pelo que o seu uso deve ser comedido e não banalizado, dispendido em vão!
As palavras fazem sentido mesmo quando são silenciadas e censuradas!
As palavras são sementes geradas no ventre, Jesus! são divinas – por isso Deus se fez verbo!As palavras são sempre revelação – anunciação!
As palavras são sagradas – pelo que incitam o fervor iconoclasta!
As palavras são mulheres, femininas – procriação, provocação, prazer, poder, diplomacia!
 
Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras
disse Ruy Belo
               inthemoodforlove.jpg       
Combino muitas vezes encontros com Wong Kar-Wai de forma quase insistente. Não consigo libertar-me dos seus jogos mentais, dos seus heróis e da feminilidade da sua câmara. A visualização é exigente e erótica acompanhada por bandas sonoras surpreendentes e inesquecíveis que nos levam para um tempo e um espaço que nunca queremos abandonar.

Jenelas,

Março 5, 2008

vãos rasgados, abertos, fendidos, unidos. suplicam-se: vãos.
gelosias, rótulas, óculos, empenas vazadas, frestas, rosáceas, flamejantes. suplicam-se: flamejantes.
janelas de dois lumes, três lumes ou geminadas, janelões, janelos, janelas, guarnecidas, estilizadas, talhadas, elaboradas, despidas, nuas. rogam-se: nuas.
platibandas rendilhadas, transparentes, transponíveis, disponíveis. rogam-se: disponíveis.
gradeamentos de ferro, forjado, fundido, de ferro fundido, de ardor cravejado, desmaterializado. como a ponte d. luiz. descarnado.
teias e cancelas sagradas. varandas, varadins, vãos de sacada, balaustrada, varanda alpendrada. sulcada.
suplicam-se que os vãos sejam rasgados, abertos e escancarados por forma a dilacerar o alcance de uma vista enquadrada. cega. escamoteada. censurada. por molduras, batentes, portadas, mainéis e lintéis.
já os vãos das portas querem-se entreabertos. suplicam-se: portas entreabertas. para sentir a textura do botão que sofregamente se desabotoa. para sentir o dedilhar das linhas. do risco. que gizou essas portas.
…p.a.u.l.a.t.i.n.a.m.e.n.t.e. vai-se sucumbindo ao doce canto, não da sereia nem da cotovia, mas ao do
beija-flor.

Quem dera a Foucault ter descoberto o universo que se esconde atrás da tua porta quando definia a heterotopia.