Precisamente a esta hora eu não devia estar aqui. devia estar a abrir uma porta e a deixar entrar o público de sempre, no passo lento de quem vai cumprir uma obrigação. a esta hora, dão pulos de alegria e fogem em passos rápidos, esgueiram-se pelas escadas na fuga a um espectáculo de reposição, substituição, que antes o que estavam à espera do que um de última hora. desconhecem a preocupação e de certeza que inspiram sofregamente o vazio comutado em fragmento de liberdade. a preocupação fica em mim. lençóis e cobertores puxados para trás. o cenário aberto onde ainda estou, não estando. o desenho na almofada, relevo.a cama já devia estar feita, já não devia ser cama, e devia estar já na forma original, sofá. eu já devia estar longe a abrir as palavras dos outros.mas a cama está aberta, desfeita, e é agora o repouso de dois seres desprovidos de preocupações, animais, felizes. de olhos fechados à obrigação.preciso de tempo. tempo para caminhar até à cama ainda por fazer. o momento em que a fizer vai dobrar-me, e ditar a rigidez do que tem de ser feito. adio a subida à superfície. ou melhor, a descida. flutuo na visão de lençóis amarrotados. adio.sucessão de pensamentos embrulhados. o por fazer. saudade. caminhos direitos em confronto com cruzamentos de pernas. entrecruzar do dever com a horizontalidade sem regras. perspectivas que me levam para o ponto de fuga, a cama ainda por fazer. enquanto ela ainda estiver por fazer, dou-me este prazer da multiplicidade de sensações, o frio no estômago, a paragem por caminhos outros, preguiça, sonho, sonhos.mais do que adiar a obrigação, adiar o encontro com outra cama por fazer. ainda. e a ilusão de que ao adiar, a cama ficará sempre por fazer.

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Janeiro 18, 2008

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‘ Num paralelismo quase hipnotico
Entre o que foi e o que é…
Entre tudo o que estava e já não está
E entre tudo o que esta sem ter estado…
Saí de mim por estes dias,
Vi sonhos distantes, desejos…
Vi medos, vi temores…
Vi sorrisos e choros…
Descobri que o tédio,
Se chamava desalento…
E que a tristesa,
Se chamava solidão.
Porque é desalento não acreditar,
E é solidão não me fazer entender… ‘

É preciso que tudo se transforme.

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Aprendi depressa a sonhar.
Tenho no nariz o cheiro das folhas molhadas, aragens de palavras simples que não me deixam olhar para trás.
Adianto-me tantas vezes no mundo carregada de sonhos e de medos. Tremo muito na companhia dos meus joelhos! O laconismo dos passos comovem-me atipicamente, fazem-me esbarrar.
Tropeço nos desapontamentos, nas notas de rodapé que estilhaçam aquilo que sou…nesses momentos sinto que morro e volto a nascer de novo, mais equilibrada nos meus saltos sempre tão baixinhos, mas tão pouco estáveis.
Tenho caminhado sempre muito cheia de ecos, dos tempos que foram e daqueles que chegam. Construindo as protagonistas da minha história, cheias de cores e de luzes, andam comigo nas ruas e fogem dos mesmos labirintos que eu, querem-se sempre fazer melhores, as minhas heroínas chamam-se emoções.