Colar de páginas

Dezembro 31, 2007

Vai,Clara, vai estudar a ontologia que te fizeram…
Prepararam com graça, com melancolia lusco-fusco, com uma tarja negra que dói, dói como ter nascido outra vez.
E o que fizesse com as páginas,Clara?As deixasse molhar?E depois?
Pendurasse pelos varais?, o sol carcomendo as fibras daquelas folhas, um sol de ouro no lá fora e as folhas ainda úmidas.Por que você não sai dessa casa?
Por que não se concentra? Vai estudar aqueles pingos,
aquelas margens e os espaçamentos duplos, as entrelinhas que se entrechocam.
Vai amar o amor que te devotaram e, sobretudo, o corpo e a mente do outro.Com quem eu falo?Como respiro?Como respiro “nós”?Há uma metafísica na gaveta,
Clara. Pegue-a, cheire-a, rasgue-a em pequenos pedaços, mastigue depois leve à boca.
É a nossa hóstia, nosso sagrado corpo, é o teatro, o espetáculo que assistimos todo o dia naquelas classes velhas, é o corpo de um grego morto, é a nossa herança.Será que estudarão, algum dia, essa ontologia? Será que o farão com a devida delicadeza?
[Responde tudo isso, abra essa gaveta com coragem, com uma coragem que vence…]
Eu guardei as páginas, a caixa, os cadeados, as tramelas… Não me pergunte mais, ela está contida, não quero que encontrem, não quero que saibam, quero a quietude dos meus guardados, dos meus segredos. As páginas, incontáveis, molharam um pouco, todas as filosofias choravam juntas, você entende?.
Mas tranquei as folhas, aqui, no dentro que rasga em átomos, ainda úmidas, para que liquidisfazer. Eu não sei sair da casa, mesmo que eu não more mais aqui, eu nunca a deixo, há um poema debaixo do piso,há paredes verdes,
há um grão de mim mesmo atrás da porta, o grão da minha voz – eu sei, eu sinto que há. Eu dialogo com paredes verdes e o vazio, é do vazio que conheço, e o silêncio não é ausência: tudo desagregado, fechaduras e chaves inconciliáveis. As doutoras dizem: Patologias do Vazio (quando é do repleto impronunciável, pois a palavra não alcança). “Vivo” é a mente epopocando coelhinhos ou o corpo arfando em desejo? Os dois? Então nunca respirei, nunca estive vivo e nunca respirei “nós” realmente, nunca. Sim, estudarão. Não essa que trago fechada, mas aquela que escorre dos livros como o toddy marrom escorre do copo depois de liquidificado.
Um, um o fará com devida delicadeza, e esse,Clara, esse enganará com as palavras de impertinência toda uma etapa dessa pupa que é o Ser, esse vai buscar no mundo o que nunca esteve, nunca estará.
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balões

Dezembro 30, 2007

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Hoje troquei a minha cama pelo sofá e o meu silêncio apagado pela voz do Zach Condon .Larguei o coração agarrei a razão acordou -me com certezas…
agora não as quero ouvir.Fartei-me da inutilidade das coisas sérias e resolvi:
-Hoje, faço uma grande festa!!!
Estão todos convidados!!!
.
Faço as promessas que duram para sempre em improvisos que harmonizam a música que ouço, seguro-me nos meus sapatos de cinderela que combinam com o meu andar infantil e sonho com balões de gás hélio e me deixar voar até a lua.

*Tomara que nesse ano que se aproxima eu perca o vôo e seja obrigado a andar sob as árvores…

 Só foram preciso 10 segundos em Last.fm pra que  me despertasse a  atenção e fizesse criar algum tipo de expectativa e esperança num rasgo de voz para o que se seguiria.O que se seguiu foi um mocinho de  ar melancolico com uma linda voz e o seu projeto Beirut que foi pra mim a grande surpresa desse final de ano.E esse mocinho chamado Zach Condon canta tão delicadamente como se encontrasse na boca de cena a declamar e os coros a imprimirem um carácter trágico a toda a teatralidade que se ouve e sente nas suas canções.Beirut(nome do projeto) é uma banda de lindissímas orquestrações, onde violinos, conjuntos de sopros, acordeões, entrelaçam uns pelos outros, apaixonam-se enquanto bebem um café com bolachas juntos, desiludem-se mutuamente e eu aqui a assistir a tudo isto tão bem coordenado.Por um momento lembrou me Los Hermanos .“The Flying Club Cup” inicialmente remete-nos para o México, até que o acordeão assume maior destaque e leva-nos para Paris (ou antes Nantes?), e a forma como Zach Condon se vai multiplicando entre músicas regionais do leste europeu  e as aglomera para criar canções que fariam sentido em qualquer lugar e em qualquer altura, é fascinante.