jogo Surrealista

Novembro 27, 2007

             chihiro.jpg

Era uma tarde fria no inferno, eu não tinha nada além da minha cartola e um encarte de vinil do Dark Side of the Moon, que coloquei sob uma lareira e tudo então foi ficando quente, e virando céu. Lembrei-me de um céu que já não existe mais, o de nuvens pálidas que hoje estão cinzas da fumaça que sai a cada piscar de olhos do meu cachorro. Foi então que, sem céu nem inferno pra habitar, caí, caí, caí… até mergulhar numa coisa líquida, viscosa e antiga.
Para esquecer o que realmente eu não tinha, fui me misturando a esse licor que descia pelo ralo da pia e do sangue me desvinculei, posto que era dia. Comi uma maçã que tinha mais gosto de pena que de fruta, peguei meu guarda-chuva para atirar folhas secas no banco de arquitetura mal feita, tão bela quanto minha mão quando fica roxa.
Reuni todas as minhas forças e toda minha coragem, e gritei a única palavra que nunca tinha ousado dizer durante todo esse tempo: colher! E há tempos não grito flores, do mesmo modo que não entrego flores ao tempo. Que se crie um laço entre o tempo e a flor, e continuarei gritando.
Devo pular ou me empurrem então, tão direto do chão ao salgueiro. Dançarei minúcias e reminiscências naquele sombrio solar de escadas rolantes, pérolas fruta-cor comestíveis. Um coração parasita a me guiar pelo algodão denso de chumbo e serragem, no país das dores da paz.

Anúncios

Lost in translation

Novembro 8, 2007

I’m stuck. Does it get easier?¹

Foi entre lágrimas que ela me falou, num desatino momentâneo, as palavras cuspidas como se a tivessem envenenado até então. Como se trouxessem um sofrimento quase desconhecido.
-Em algum momento eu me perdi, e perdi também algo que me era essencial, que me conferia certezas e me fazia tomar atitudes, sempre tendo em vista planos há muito definidos e objetivos aparentemente imutáveis.
Agora eu preciso aprender a conviver com as dúvidas e a sensação de que nada me pertence, nem meus próprios rumos, uma vez que já não sei mais quais são eles. Uma vez que já não sei mais quem sou.

Era só uma menina. E eu gostaria de responder que tudo aquilo passaria e que dentro em breve ela sequer se lembraria das angústias que a consumiam, mas não sabia mentir (muito menos para o próprio espelho).

¹Charlotte, em “Lost In Translation” (vulgo “um dos filmes da minha vida”)

Sob o signo do duplo

Novembro 7, 2007

                        double3.jpg

“Toda minha vida tive a impressão de estar aqui e em outro lugar”, diz Véronique, no final de A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.
… deus, como eu a entendo!

“Tudo no mundo é duplo: visível e invisível
O visível, de resto, interessa sempre muito menos.” Cecília Meireles

Veronique, a moça francesa do filme do Kieslowski, como que movida por uma força subjetiva, um desses inexplicáveis sentimentos que surgem do desejo de uma compreensão além da superfície das coisas, pressente a existência de um duplo de si mesma. A minha busca é menos intensa, mas ainda subjetiva. Não procuro um eu paralelo, vivendo anônimo em alguma parte do mundo. O que eu procuro é, provavelmente, a procura de todos: auto-conhecimento. Mas estou falando de um auto-conhecimento bem mais profundo do que o simples ato de examinar levemente qualidades e defeitos, como quem desenvolve um mapa astral repleto de características e probabilidades. Esse auto-conhecimento tem que ir além do campo conhecido e beira esses sentimentos que a gente não sabe o nome. Talvez essa busca se dê aos poucos, talvez seja preciso insitir nela, abrindo um espaço sempre para dentro, instrospectivo, difícil porque inexplorado ainda. Há tanto de mim que desconheço, há tanto que nem suspeito. O que eu quero mesmo, por hora, é encontrar esse fio invísivel que conecta as pessoas umas às outras, porque o meu está perdido nesse emaranhado confuso que é espírito, alma, consciência cósmica, o diabo. Esse emaranhado que está realmente emaranhado e realmente confuso.

I Know It’s Over

Novembro 4, 2007

              mozzl.jpg

gosto do que aconteceu com o rock’roll ao longo dos anos. talvez ela seja o único gênero musical cujo desenvolvimento se fundamenta na própria negação do gênero. gosto do rock’roll quando ele não sabe mais o próprio nome. gosto do rock’roll quando ele não lava as mãos antes de comer. quando ele não sai por ai marchando. gosto do rock’roll quando ele se descobre não adaptado. quando ele perde seu emprego. quando ele acende um cigarro trinta segundos depois de acordar. gosto do rock’roll quando ele reclama de sua gastrite. quando ele detesta o rock’roll. gosto do rock’roll quando ele esquece de fazer o seu dever de casa. gosto do rock´roll quando ele se descobre jazz. e folk. e coisa alguma.