Tinha poucas certezas e menos palavras. Tinha ainda menos senso de humor, nessas horas. Mas sorria irresponsavelmente e ninguém reclamava. Sorria pra não rir, de si mesmo ou de alguém.

Mas acima de tudo, de si mesmo.Ah, conhecia seus defeitos tão bem. E esses sorrisos não são simpáticos, são defensivos. Ninguém se preocupa com sorrisos.Mas ele sim.

Talvez devesse começar a economiza-los.Quando aquela música tocou, e todo mundo dançava como se fosse qualquer música, talvez não fosse.

Era a música dele, apenas dele, naquele momento. E ninguém sabia, nem se atreveu a discutir o assunto. Nem ele.E era uma música melancolicamente disfarçada de feliz. Como ele.

E aquele conflito volta a bater na porta: quantos anos merecia ele ter?Depois de tudo deixar aparecer, na frente de quem talvez nem saiba quem ele era, já não é mais.

E deixou muita história pra contar, aquele ser que ele era antes de ser de novo.

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Setembro 20, 2007

choveu na palavra onde eu estava.

‘Dance with me’

Setembro 10, 2007

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Pastiche parisiense.
Ando a epítome do Nouvelle Vague…
Nouvelle Vague girl.Quero a máquina de escrever lá do escritório. Vou lá roubar ela com o Antoine.Seja Truffaut, seja Godard,Quando Paris alucina…Então vou a Paris alucinar.Peraí… Como é que a Audrey Hepburn veio parar na história?Paris when it sizzles, darling!Ok, nevermind. Entra no café, pede um expresso, acende um cigarro… Até a Audrey tá blasé,Baforada.Quem diria… Jean-Paul e Simone entrando, já discutindo, ambos gesticulando.Chega de café, pede um comunárd! Por que hoje a noite promete.

Para amigo F.Wilhelm

Já não sei mais escrever caro Wilhelm.Minhas palavras estão ficando sem fluxo.Perdendo os sentidos. Não as sinto mais torneadas por boas frases, e não sei escolher os temas. Tudo me foge ao controle. Tudo parece longínquo e abstrato.A unica coisa que eu carrego comigo são as dúvidas,ando duvidando muito ultimamente. E me pergunto sempre que sento e olho o teclado por cima, impiedosa: porque não fotografar as coisas, e deixar as sensações materializadas numa imagem, contrariando escrever?E me vem um branco. Um ponto.Um furo no tecido vazio. Um incorrigível jeito de escrever, viciado e pelo qual me sinto desassossegada. Sou pós-moderna demais para compromissos indissoluveis com a verdade: não a verdade, nem as religiões, pois não ensinam mais que a confeitaria.Essa sua aparente verdade, tão real, que pouco é, quase nada. E nada é o que temos por aí, nesse momentos em que encho minha cabeça com pensamentos, determinados psico-fisio-biologicamente, e que são tão pouco a não ser que me comprometo com a transformação, com a metafísica, com a poesia.Acho que era isso minha proposição. Substituir essa verdade tão árida e estrangeira para mim por uma invenção vazia e poética – a literatura não te diz mais que a realidade, porque essa é aquela transformada pela ação humana em poesia? fim dessa década vem chegando. Não sei porque. Mas isso não me sai da cabeça. E as vezes isso me lembra um pouco a minha verdade. Aquilo que eu crio nada mais é que a minha verdade alucinada, e mais!, alucinada dentro de mim mesma. Tudo é apenas um modo de expressão, um modo de descrever esse-todo-imenso-e-circundante. Se acho que escrevo algo que foge à realidade que me envolve, engana-me. Por acaso você conhece outra? Uma outra que vá além da minha? Não é possível escrever, criar, conceber, o que não faz parte do meu mundo íntimo de verdades, me limito por aquilo que mais me aflige, e ainda mais, o que me aflige é árido, parco e vacuamente nonsense.Fiquei toda a vida a espera.Colecionando motivos.Morro desajeitadamente de preguiça,me alimento de pequenas felicidades, variando cores, brincando de nomes, estilos. Ensaiando mais a espera do que o que viria dela. Mas isso, porque é “disso” que chamamos quando não sabemos o nome. Isso não veio. Me perdi antes mesmo de chegar no labirinto. Eu já devia ter parado de esperar Godot, há muito tempo, não é ? Ai, que saudade me deu,Wilhelm.Há um tempo, quando me faltavam sono e motivação, eu sentava sempre à beirada das tuas letras . Acho que para guardar um pouquinho das tuas preciosidades comigo.Agora, quando me faltarem os motivos, vou tentar agrupar umas palavras, essas minhas inimigas fugidias. Assim, até a Primavera, quem sabe não fisgo uma jóia como retribuição? e me diga Wilhelm porque acho que verdadeira afeição vai estar só onde ela menos provavelmente pode?A única verdade que eu sei é que dependendo de cada livro que você ler,às vezes leva uma vida inteira para conseguir o que presisa.

 Com saudades,

Ana.C