Entre.os.dias.

Agosto 26, 2007

e enquanto as paredes vão e as articulações vão e os bloqueios de escritor vão – e quem disse que isso seria bloqueio? e… escritor? -; eu me pergunto se há alguma música na impossibilidade de enxergar-se nelas?


e aí, as paredes verdes me incomodam.e a natureza, assim, superestimada, me incomoda.

mas eu me acostumo. eu me levanto e digo:

wake me up and leave.
like it always used to be.

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Peço que leia rapidamente, como se tivesse receio de ser engolido pelas palavras. Tudo isso; os cadernos encharcados de mim mesmo, as cartas anunciando alguns pecados que eu nunca enviei e duas ou três dores de ser, meu suspiro opaco de fumaça sobre os abajures; tudo isso exerce uma força que engole violentamente, força-significado, puro símbolo, puro enigma. Dou mil voltas ao redor de mim mesmo enquanto me fitas silenciosamente. Então leia logo, por favor, ou te afogo – o desejo deseja – leia com pressa, sem se preocupar se as palavras vibram, se vibram umas nas outras, se entrelaçam-se.Não quero a verdade, nem as religiões, ora, elas não ensinam mais que a confeitaria.Na verdade, aprendi muito mais com as receitas de biscoitos, que com os grandes tratados, Metafísica de Aristóteles, o Discurso do Método de Descartes, O Ser e o Tempo de Heidegger… Tenho a incômoda sensação de que algo parou para sempre, como um relógio antigo que fenece na gastura de seu mais íntimo tique-taque, ou no desordenado de engrenagens mínimas. E eu, eu poderia dormir por uma década inteira, pois, somente em densa sonolência, conseguiria reviver plenamente os instantes que ficaram nebulosos, envolvidos por algo de etéreo e inexplicável. Não dormirei… Não posso, estou em busca… Em busca do tempo perdido – Ahh, Marcel… – ou então, devo aproveitar le temps qui reste. Um dia se morre – como ando funesta, o que posso fazer? A morte me instiga com um enorme e pulsante: ?

sobre isso…

Agosto 21, 2007

 Em uns versos que eu escrevo,Fico tomado de sentimentos contraditórios, não sei mais o que pensar. É penoso. Escrever um pouco, todos os dias é balsâmico. Escrevo, depois tenho vontade de rasgar tudo, apagar da minha memória.“…um rádio, eu sou pelo avesso, sua pele, o seu casaco…”É fantástico. Instigante, aterrador, extenuante, deletério, nutritivo, contraditório. Enquanto espero, permaneço uno, vou impedir o devir.“…o seu asfalto, se você vai sair, eu chovo, sobre o seu cabelo, pelo seu itinerário, sou eu o seu paradeiro…”Entre outras paixões… Me apaixonei, outra vez, pela Adriana Calcanhoto,pelo João Guimarães Rosa pela e pela Clarice Lispector. E depois rasgo.

Tim Burton

Agosto 11, 2007

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Tim Burton é o grande diretor da sessão da tarde. E mais que isso: Tim Burton é um grande diretor. Vez ou outra, comete bobagens, vide “Planeta dos Macacos”, preciso dizer, é um mistério. Por que diabos alguém quereria filmar ou ver um filme cujos atores são homens fantasiados de macacos? Há algum fetiche nisso. No entanto, macacos me mordam à parte, não vou usar rudimentos de Freud para denegrir o diretor, se quero elogiá-lo. O caso é que Tim Burton tem um terreno delimitado, dentro do que se convencionou chamar de cultura pop, onde ele pode ser o que há de melhor em entretenimento misturado à poesia – à poesia do Romantismo, é bom que se diga – e ao fantástico. “Edward Mãos de Tesoura” é o auge desse estilo inconfundível, mas já em “Batman” os traços essenciais se tinham delimitado: a paisagem sombria, o personagem cuja ternura é corroída pela inadaptação e pela incomunicabilidade, e sempre um toque tragicômico barulhento que perturba o silêncio predominante. O diretor, logicamente, tem consciência do espaço onde pôde e pode alcançar o maravilhoso, e tentou um retorno em “A Lenda Do Cavaleiro Sem Cabeça”, recrutando Johnny Depp outra vez. Não obteve sucesso. O filme é bom, mas o melhor de ambos – Depp e Burton – está mesmo no sombrio daquele castelo encantado, à vista de todos, mas que a cidade provinciana insiste em ignorar, e está na ternura da figura pálida de Edward, em seu modo de caminhar, acanhado, em seu olhar melancólico, na neve que inventa para que Winona Ryder sonhe. Porque não podemos esquecer: além da bela e triste lenda de Edward, que é a história íntima de todos nós, devemos celebrar Tim Burton por nos ter inventado Edward.

(e para que fique claro de uma vez por todas: “Edward Mãos de Tesoura” me esfatia em pequenos pedacinhos de melancolia, saudade e eterno desejo de beleza)

Janela do meu quarto

Agosto 8, 2007

                          

No instante em que abro a janela do mesmo quarto, meus coelhinhos voltam a me atormentar

olhando a única parede verde tomando meu toddy, a cidade dorme, enquanto meu sono dispersa e dá espaço aos dilúvios internos que dão voltas e voltas a fio

sento e ouço a mesma música, que me guia nessas noites angustiantes, e nostálgicas de certa forma

me desculpe tantos rodeios, mas no meu ponto de vista, não há provas suficientes de que as palavras expliquem, ou sequer esboçem qualquer pensamento em sua forma mais bruta, das mais variadas interpretações

neste diálogo solitário, entre mim e a parede, eu continuo a observar uma cidade que ainda dorme e muitos sonham, afujentando alguns de meus tormentos

finalmente dou meu último gole, sabendo que amanhã mais um toddy virá e mais coelhinhos  me visitarão enquanto olho a mesma parede verde

 

p.s/preciso vomitar coelhinhos.

Estive pensando…

Agosto 2, 2007

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Eu nunca fico melancólica por mais de trinta minutos. Pelo menos não quando o assunto da melancolia é proposto por reflexões sobre a vida, sobre a passagem do tempo, ou sobre “como as coisas estão piorando”. Essa melancolia só suporto por meia hora, no máximo. Quinze minutos, na verdade. Talvez o tempo de escrever um post para este blog: depois de escrito, se fica bem escrito, eu fico satisfeita e a melancolia e eu apertamos as mãos. Ela me diz: “Bom trabalho, Ana”, ao que eu respondo: “Não conseguiria sem você, cherie”. Ela fica um tanto ruborizada e se despede, como aquelas músicas que não exatamente terminam, que apenas vão diminuindo de volume, aos poucos. Mas isso é coisa rara: na verdade, quase tudo que se escreve com sentimento nas pontas dos dedos é péssimo. Por isso os poetas evocam as Musas, filhas da Memória: escreve-se relembrando, o que é diferente, é bom que se diga, de escrever para relembrar. O que está escrito, parafraseando T.S. Eliot, é eternamente presente e irredimível. E se se pudesse pular para dentro do texto e morar clandestinamente dentro de alguma palavra, nós também seríamos.

P.s: se eu precisasse escolher, eu quereria morar dentro da palavra “azul”: parece calma e distante.
E você?

Luto duplo

Agosto 1, 2007

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Luto, de novo

A morte deixou duas vítimas seguidas no panteão do cinema: Bergman e Antonioni. O sueco não gostava do italiano, não sei se a recíproca era verdadeira, mas é interessante que uma coisa os unia, cada qual em seu estilo – foram dos cineastas mais dedicados em entender as mulheres, e utilizavam um realismo das emoções que era da ordem da alma, interior, enquanto se permitiam estilizações exteriores.No artigo publicado no New York Times sobre a morte de Bergman, Mervyn Rothstein transcreve a seguinte declaração do cineasta: “Quando eu era jovem, tinha um medo extremo de morrer. Mas agora penso que ela faz parte de um arranjo muito, muito sábio… 

 Fanny e Alexander pode até não ser o melhor filme de Ingmar Bergman, mas para mim tem um sabor especial, já que foi lá em 2004, na casa da minha tia Ana, meu primeiro contato com o cineasta e logo me encantei. Aqui ele faz sua enciclopédia, utilizando vários temas já explorados em suas obras mais antigas, ao meio de um conflito de gerações e épocas, no qual eras se confundem e emoções são reprimidas. Tudo é possível e provável, pois tempo e espaço não existem de forma ordenada, criando crises de identidade e personalidade que culminam na obrigatória referência a Deus, em uma das personagens mais fortes e interessantes da carreira do diretor.