Estou te escrevendo de um lugar distante pedindo conselho
Setembro 2, 2007
Para amigo F.Wilhelm
Já não sei mais escrever caro Wilhelm.Minhas palavras estão ficando sem fluxo.Perdendo os sentidos. Não as sinto mais torneadas por boas frases, e não sei escolher os temas. Tudo me foge ao controle. Tudo parece longínquo e abstrato.A unica coisa que eu carrego comigo são as dúvidas,ando duvidando muito ultimamente. E me pergunto sempre que sento e olho o teclado por cima, impiedosa: porque não fotografar as coisas, e deixar as sensações materializadas numa imagem, contrariando escrever?E me vem um branco. Um ponto.Um furo no tecido vazio. Um incorrigível jeito de escrever, viciado e pelo qual me sinto desassossegada. Sou pós-moderna demais para compromissos indissoluveis com a verdade: não a verdade, nem as religiões, pois não ensinam mais que a confeitaria.Essa sua aparente verdade, tão real, que pouco é, quase nada. E nada é o que temos por aí, nesse momentos em que encho minha cabeça com pensamentos, determinados psico-fisio-biologicamente, e que são tão pouco a não ser que me comprometo com a transformação, com a metafísica, com a poesia.Acho que era isso minha proposição. Substituir essa verdade tão árida e estrangeira para mim por uma invenção vazia e poética – a literatura não te diz mais que a realidade, porque essa é aquela transformada pela ação humana em poesia? fim dessa década vem chegando. Não sei porque. Mas isso não me sai da cabeça. E as vezes isso me lembra um pouco a minha verdade. Aquilo que eu crio nada mais é que a minha verdade alucinada, e mais!, alucinada dentro de mim mesma. Tudo é apenas um modo de expressão, um modo de descrever esse-todo-imenso-e-circundante. Se acho que escrevo algo que foge à realidade que me envolve, engana-me. Por acaso você conhece outra? Uma outra que vá além da minha? Não é possível escrever, criar, conceber, o que não faz parte do meu mundo íntimo de verdades, me limito por aquilo que mais me aflige, e ainda mais, o que me aflige é árido, parco e vacuamente nonsense.Fiquei toda a vida a espera.Colecionando motivos.Morro desajeitadamente de preguiça,me alimento de pequenas felicidades, variando cores, brincando de nomes, estilos. Ensaiando mais a espera do que o que viria dela. Mas isso, porque é “disso” que chamamos quando não sabemos o nome. Isso não veio. Me perdi antes mesmo de chegar no labirinto. Eu já devia ter parado de esperar Godot, há muito tempo, não é ? Ai, que saudade me deu,Wilhelm.Há um tempo, quando me faltavam sono e motivação, eu sentava sempre à beirada das tuas letras . Acho que para guardar um pouquinho das tuas preciosidades comigo.Agora, quando me faltarem os motivos, vou tentar agrupar umas palavras, essas minhas inimigas fugidias. Assim, até a Primavera, quem sabe não fisgo uma jóia como retribuição? e me diga Wilhelm porque acho que verdadeira afeição vai estar só onde ela menos provavelmente pode?A única verdade que eu sei é que dependendo de cada livro que você ler,às vezes leva uma vida inteira para conseguir o que presisa.
Com saudades,
Ana.C
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